WELCOME TO IRAN

É como começam todas as conversas. A seguir perguntam de onde sou. Portugal, respondo. Com um sorriso aberto declamam uma lista de nomes de treinadores e jogadores de futebol. Portugal “good country” exclamam. Olham-me com curiosidade e perguntam pelos meus amigos. Quando percebem que estou sozinha ficam admirados. Falam entre eles e acenam para mim com ar de respeito. Welcome to Iran.

Outubro 2015


Na fronteira entre a Turquia e o Irão não há terra de ninguém. Dois portões de grades correm juntos. Abre o da Turquia e espera-se que abra o do Irão. A conta-gotas, passam meia dúzia de carros de cada vez, controlados por soldados.

Welcome to Iran, diz o polícia que faz o controlo do passaporte. Carimba o visto de turista, depois segue-se a alfândega, coisa que demora mais tempo. O Irão é um dos países que exige Carnet de Passage en Douane, um livrinho castanho que todos transportam e fazem fila para o carimbo de entrada. O guichet dos camiões está a abarrotar. Pudera, fiz 30 km em contramão para passar pelos camiões de carga que esperam entrar no país. A minha primeira surpresa, eu que pensava que os efeitos das sanções internacionais impediam o comércio. Do lado do Irão, outra fila de camiões para sair. 


Assim que atravessei o portão do Irão tive de tapar o cabelo com um lenço, lenço que fui obrigada a usar durante todos os dias. As mulheres não devem mostrar o cabelo nem outras partes do corpo à excepção da cara. A lei da Sharia (aplicada no Irão) diz que as mulheres devem usar “Hijab” (lenço que tapa a cabeça e ombros) como sinal de modéstia e recato. Também não é permitido usar ornamentos em público. É considerado pornográfico e insultuoso mostrar os braços ou pernas. Nunca vi ninguém de calções ou manga curta. Nem os homens.

Bazargan é a primeira cidade que se atravessa por uma avenida larga cheia de lojas. O trânsito é caótico. Todos têm prioridade, andam em sentido contrário, nos cruzamentos é um salve-se quem puder. As motorizadas furam por todo o lado e quando o trânsito está mesmo parado circulam pelos passeios. Os peões circulam por onde podem. Um caos. Até agora, é o único país onde vi caberem quatro carros em duas faixas. Tão perigoso como a Índia.

Ainda em fase de adaptação ao trânsito, rumei até Urmia, cidade junto ao grande lago salgado, onde vive o Hossein, um motociclista iraniano que tem uma Gest House e ajuda os motociclistas estrangeiros. Acompanhou-me a trocar dinheiro, a comprar um cartão de telemóvel e explicou-me os hábitos do Irão e o que deveria ter em atenção. Trago a recordação de uma família gentil e hospitaleira em cuja casa não precisei de usar a cabeça coberta e onde o pai me disse “In my house you are free”.



Vou-me começando a habituar que qualquer cidade do Irão tem quase, ou, mais de 1 milhão de habitantes. Entrar numa cidade demora mais de 1 hora de trânsito parado e ruas sem identificação. Aprendi que não se deve sair das avenidas principais pois as ruas secundárias levam-nos a um emaranhado de ruelas e becos, sem organização, sem gente, apenas muros altos e portas de ferro, típico da cultura árabe, em que as casas são orientadas em volta de um pátio central. Não há janelas para a rua.



Estou na região do Curdistão iraniano, uma zona de planícies enormes, de terrenos arados, sempre com as montanhas ao fundo, carecas, sem árvores, apenas com vegetação rasteira e seca. A estrada é quase uma linha recta que corta a terra castanha e vermelha. Os curdos distinguem-se bem dos restantes. Usam calças muito largas, presas na cintura com uma faixa e elástico no tornozelo. Usam um lenço na cabeça com berloques de linha.

As aldeias estão desertas. Casas da cor da terra, quadradas, com telhados planos forrados com material isolante prateado. Armazenam fardos de palha nos telhados. Nos campos veem-se rebanhos de cabras que por vezes invadem a estrada e entopem o trânsito. 












Kermanshah é o próximo destino. Uma cidade que não está na rota do turismo mas que tem de ser ponto de paragem para quem desce por este lado pois é a única que tem hotéis. Não há hotéis de estrada nem residenciais ou pensões nas localidades. Não é fácil pernoitar no Irão pois só as cidades maiores têm hotéis. Obriga a planear muito bem os dias e distâncias.

À entrada da cidade um polícia indicou-me um hotel. Modesto, limpo, com WiFi mas sem garagem. O recepcionista que fala um pouco de inglês abriu a porta do restaurante e mandou-me guardar a moto perto das mesas do pequeno-almoço. Ficou a olhar para ela durante algum tempo. A moto até que parecia uma obra de arte.




Depois de jantar ouvem-se cânticos e rufar de tambores. Há uma espécie de procissão na rua. Duas filas de homens, vestidos de negro, desfilam lado a lado ao som da música e fustigam-se nas costas com correntes, ao ritmo dos tambores. É a celebração do aniversário da morte de Hussein ibn Ali (neto do profeta Muhammad) morto na batalha de Karbala. Para os xiitas é uma época tão importante quanto o Ramadão. Durante 10 dias vestem-se de negro, choram a morte do seu Imam e expressam a sua tristeza nestas manifestações de pesar, fustigando-se para sofrer como sofreu Hussein. Fiquei a perceber porque o país está cheio de bandeiras negras penduradas por todo o lado.



Geralmente o Bazaar é o centro da cidade. Um espaço coberto, um intrincado conjunto de corredores de lojas. Está organizado por profissões. Há um corredor só com ourivesarias, outro de sapatarias, outro de roupa para homem, outro só com lenços, outro de especiarias e mais corredores cheios de artigos todos iguais. O mercado das frutas e legumes está separado. O meu espanto foi encontrar lojas de tecnologias de todas as marcas conhecidas - telemóveis, LCDs, aparelhagens de som, computadores, até mesmo de marcas americanas.




O Bazaar de Kermanshah é muito genuíno. Nota-se que não é frequentado por turistas pois só vendem artigos do quotidiano. Ao passear por entre as lojas senti-me uma extra terrestre. As pessoas olham-me com curiosidade, as mulheres sorriem e as crianças lançam-me uns “Heloo” e dão gargalhadas. Não me sinto constrangida nem ameaçada. Todos são muito simpáticos. Nas pastelarias oferecem-me miniaturas de bolinhos de areia que se desfazem na boca com um estalo deixando um travo a limão. Com gestos peço autorização para lhes tirar fotos. Consentem com a cabeça e fazem pose. Oferecem-me frutos secos e logo após um “Welcome to Iran” perguntam – Where are you from




No dia seguinte cheguei a Isfahan. Avenidas entupidas de trânsito. Demorei quase 2 horas para encontrar o hotel. Valeu-me um automobilista que ao ver-me parada numa rua com ar perdido me levou até ao destino.

Isfahan é uma cidade que foi em tempos remotos uma das maiores do mundo e capital da Pérsia no Séc. XVI. Rica em palácios, mesquitas, minaretes e, principalmente conhecida pela sua enorme praça “Naghsh-e Jahan”. Os iranianos têm muito orgulho na sua Isfahan e dizem que “Esfahān nesf-e-jahān ast" (Isfahan é metade do mundo).

A praça central é monumental. As mesquitas e o palácio estão revestidos de azulejos coloridos, têm grandes abóbodas e o chão coberto de tapetes. A cor predominante é o azul, entendido na cultura islâmica como uma cor de protecção e harmonia (cor do céu e do mar). Muitas mesquitas são conhecidas pelos Ocidentais como “Blue Mosque” mas acabam por ser todas azuis.

Ali Qapu Palace

O nome do palácio, na língua persa significa “Imperial” ou “grande”. Foi construído no séc. XVII por Shah Abbas I, o 5º monarca da dinastia Safávida. Era o local onde recebia altos dignitários e embaixadores estrangeiros.
Tem 6 andares que se sobem por uma estreita escada em espiral. No 6º andar está o “Music Hall”, uma fantástica “sala de música” adornada com nichos redondos para melhorar a acústica. Do terraço tem-se uma vista espetacular para a praça Naghsh-e Jahan.




Mesquita de Sheikh Lotf Allah

Também construída no séc. XVII pelo monarca Shah Abbas I, esta mesquita era privada, de utilização exclusiva da corte real, mais propriamente para as mulheres do Harém do Rei. Existia um túnel entre o palácio e a mesquita para elas passarem sem serem vistas. Talvez por isso, a Mesquita não tem minaretes (para chamar os fiéis a rezar) nem tem configuração de mesquita pública. É considerada uma mesquita pequena, nos termos de mesquitas do Irão, o que para mim é uma surpresa pois achei a mesquita enorme. O trabalho de azulejo e outros pormenores é absolutamente incrível.
Ao contrário de outros países muçulmanos por onde andei, no Irão nunca tive problemas em entrar nas mesquitas. Estão abertas ao público, inclusive às mulheres. Basta pagar o bilhete de entrada.



No meio da praça há uma fonte com repuxos e um jardim bem cuidado. À noite está tudo iluminado, luzes amarelas contra um céu escuro tornam o ambiente especial.

No Irão, o acesso às mesquitas é livre a todos os turistas, inclusive mulheres. Paga-se uma entrada de cerca de 4 euros – o preço é tabelado em todos os monumentos, grandes ou pequenos, mesquitas ou ruínas, tudo tem o mesmo preço. As zonas de oração também são de acesso livre, áreas separadas para homens e mulheres. É obrigatório descalçar os sapatos.






Passeei no “Persian garden”, um jardim enorme cheio de flores de todas as cores e espaços relvados. Os jardins são muito importantes no Irão e todos estão muito bem cuidados. A maioria das cidades tem “persian gardens” pois o Paraíso é formado por jardins. O verde é a cor da Natureza, a cor sagrada do Islão e uma das cores da bandeira do Irão. Em todos os jardins se vêem iranianos a fazer picnics, juntam-se os amigos e as famílias para conversar e estar juntos, especialmente à sexta-feira (dia de descanso e fim de semana para os iranianos). Sentam-se em tapetes, levam comida e a chaleira do chá num pequeno fogão portátil.





Em Isfahan, a 3ª maior cidade do Irão nota-se uma grande influência quer do turismo quer do nível económico dos habitantes. Vêm-se mulheres com o lenço descaído, a tapar apenas metade do cabelo, sem a capa preta e com roupas mais modernas que no interior do país. Alguma coisa está a mudar por aqui.


Rumo a Sul, a paisagem fica cada vez mais desértica. Terra amarela, areia e pedra. Há poucas povoações. As distâncias são gigantescas. Entre qualquer cidade que está na minha lista para visitar são no mínimo 500 km. As estradas principais são todas vias rápidas com duas faixas de cada lado. Não é necessário entrar nas cidades pois há uma estrada circular para evitar o trânsito infernal do centro.





Restam as estações de serviço, geralmente perto das povoações. Cada vez que abasteço os empregados olham-me com surpresa. Quase nem acreditam que sou uma mulher. Ainda espantados dizem-me “welcome to Iran” e correm a ir buscar chá. Ficam a olhar para a moto e querem tirar fotos. A minha moto é quase uma nave espacial.

Bule gigantesco de chá. Para quem quiser servir-se. Há por todo o lado.


No Irão não há motos superiores a 250 cc. Nas cidades só é permitido andar com motos até 125 cc e não é necessária carta de condução. Para se ter uma moto com 250 cc é necessário autorização da polícia e só se pode conduzir fora das cidades. Ninguém usa capacete. As motos levam quantas pessoas couberem. É normal ver 3 e 4 pessoas numa moto, famílias inteiras, pai, mãe e 2 ou 3 filhos.

De vez em quando páro na estrada. Para beber água, descansar e tirar fotos. Percebi depressa que não posso parar à vista dos carros. Começam por perguntar se preciso de ajuda e ficam a ver a moto e tirar fotos. Uma vez juntaram-se quatro carros à minha volta. Tiram fotos uns aos outros ao lado da mota e até a polícia fez o mesmo. Depois querem tirar fotos comigo. Mais tarde descobri que é proibido fotografar mulheres e homens na mesma foto a não ser que sejam familiares. A partir daí recusei ficar nas fotos. Deve ser um troféu ter uma foto de uma moto que não há no Irão e ter uma foto com uma mulher. Aposto que o WatsApp anda cheio de fotos minhas (aqui o facebook está bloqueado. A rede social é o WatsApp). Ainda arranjo problemas. Também comecei a escolher os locais de paragem, atrás de um monte ou pedra ou escondida num cruzamento. 





(Em construção)

TURQUIA



27 de Abril a 12 de Maio 2014

Parte II    (ler a 1ª parte AQUI )
Quando planeei a viagem encontrei várias referências das Munzur Mountains, uma região inóspita no centro da Anatólia onde passa o rio Eufrates, na fronteira com o berço das principais civilizações da Mesopotâmia. Apeteceu-me passar por lá. São só 500 km. 


Uma parte do caminho é por uma estrada que pertence à antiga rota da seda, rota de comércio entre o Oriente e o Ocidente por onde passavam caravanas carregadas de bens. Ainda existem os “Kervansarais”, albergues fortificados à beira da estrada que serviam de pouso e abrigo aos comerciantes.
Como ponto turístico, à volta deste caravanserai cresceu uma vila com várias lojas e restaurantes no meio do nada. A entrada custa 15 liras. Não me apeteceu. Fiquei pelo exterior.




Continuo na grande planície da Anatólia central por uma via rápida que atravessa uma terra seca e quase deserta. Tufos de vegetação intervalam com montes de terra branca com recortes estranhos. Não há casas, vilas ou gente, apenas a via rápida, camiões e postos de abastecimento. Depois de dois dias de bom tempo, hoje, o céu está carregado. A meio da manhã levanta-se um vendaval terrível. A viagem transforma-se num tormento. Tenho de parar numa estação de serviço.
Há um restaurante onde ninguém fala inglês. Em gestos explico que tenho fome. Fazem-me sinal para sentar e servem-me uma deliciosa sopa, uma salada e carne guisada. Estou a ver um programa de culinária na TV à espera que o vento acalme. Eu e uns quantos camionistas que também fizeram uma paragem de segurança. Um par de horas depois vejo os camionistas a sair. O vendaval acalmou. Sigo viagem. À medida que me aproximo das montanhas os campos ficam mais verdes, a estrada fica mais estreita, há rebanhos de ovelhas e vacas e cães pastores que ladram e correm atrás da mota.




Chove outra vez e o vento continua a fustigar. À entrada de uma vila páro numa estação de serviço. Estou ensopada e gelada. Não falam inglês. O moço chama-me atrás do balcão. Tem o Google translator aberto e conversamos pelo teclado Turco-Inglês-Turco. Daqui para a frente é estrada rural, muitas curvas, sobe a montanha até ao desfiladeiro do rio Eufrates. É quase noite. Penso que já é tarde para tanta aventura. Por sorte há um hotel na vila, junto à mesquita, onde ficam os peregrinos.

O recepcionista não fala inglês e o hotel não tem restaurante. O mais próximo é no centro da vila a 2 km. Tem Internet wireless e ligo o Google translator no meu telemóvel. Consigo explicar ao velhote que estou exausta, esfomeada. Chove torrencialmente. Vai pedir a um restaurante que traga um kebab ao hotel. Passado pouco tempo estaciona um Renault comprido, esguio e reluzente, sai um rapaz novo, bem vestido, com uma bandeja onde trás um menu completo, prato, talheres, copo e iogurte. O recepcionista improvisa uma mesa na recepção. Tudo isto por 4 euros. Janto a pensar que esta não é apenas uma viagem, é uma experiência de vida onde reina o imprevisível.

Os altifalantes da mesquita aqui ao lado gritam a chamada para a oração. Adormeço com a cantilena e acordo com a mesma canção.
Amanhece sem sol, sem chuva. Vou andando até que o tempo me permita. Uma estrada estreita de montanha, subidas íngremes e retorcidas, paisagem verde fenomenal. Lá em baixo, num desfiladeiro corre o Eufrates. A estrada corre junto ao leito do rio, passa por túneis escavados na montanha. Lá longe uma ponte de ferro atravessa o rio. Estou sentada numa rocha à beira da estrada a respirar natureza e a pensar se faço os 70 Km de uma estrada que me falaram que se chama "Estrada das Pedras", um caminho de terra que corre sempre junto ao rio. Há uma placa que dia que a estrada é perigosa. 

O céu escurece rapidamente. De repente ouve-se o estrondo de trovoada. Enquanto visto o fato de chuva aproxima-se uma coluna militar. O jipe da frente para e perguntam-me que estou ali a fazer. Um dos oficiais fala um pouco de inglês. Diz que há uma vila uns km à frente e tem um Hotel. Entro na vila escoltada por vários camiões de soldados (mais tarde explicaram-me que nas zonas mais remotas não há polícia, são as forças militares que mantem a ordem).






No Hotel ninguém fala inglês. Aponto para o restaurante. Fazem-me sinal para sentar. A meio do almoço aparece uma rapariga e senta-se na mesa. É a professora de inglês da escola. Foram chamá-la para falar com a estrangeira que chegou de mota. Passa a tarde toda comigo. Afinal aquela “pequena” vila tem 10 mil habitantes, é muito conhecida por se organizarem provas internacionais de trekking e por ter uma característica única – todas as portas têm dois batentes, cada um com som diferente, um para homens outro para mulheres. Assim, os donos da casa sabem qual deles deve ir abrir a porta.














Leva-me a visitar a escola secundária, um edifício enorme e moderno. Tem um museu de história natural que faz inveja ao museu de Lisboa. Várias salas com fósseis, animais empalhados, exposições de flora local. São os alunos que mantêm o museu. Todos os anos há incursões pelo país, em locais onde escavam relíquias acompanhados pelos professores. Tudo isto financiado pelo Estado. Fantástico.




Depois de jantar vamos dar uma volta pelos bares. Esta pequena cidade tem muitos jovens e, por isso, bares abertos até tarde. Um deles é numa antiga igreja que foi transformada. O altar é o bar onde se servem as bebidas. Diz-me que é o mais popular. Faz-me lembrar na Irlanda onde estive num bar que era uma antiga igreja inglesa. Esta coisa da religião faz-me confusão.

As empregadas são todas mulheres jovens. Fico curiosa e pergunto sobre a vida das mulheres num país muçulmano. Explica-me que ainda é complicado. Nas grandes cidades e vilas as mulheres desempenham um papel mais activo, têm mais liberdade. Já não usam o lenço a tapar o cabelo. O problema são as regiões mais remotas, pequenas aldeias onde ainda reinam os tempos antigos. 

Chamam coincidências a factos da vida. Se não tivesse feito uma pausa e se tivesse seguido pela estrada das pedras tinha sido apanhada pela chuva no meio da montanha, numa estrada de terra encalhada entre a escarpa e a falésia. Felizmente a beleza da paisagem “obrigou-me” a parar, a coluna militar não deu espaço para pensar em odisseias de off road. Por vezes o entusiasmo retira-nos o bom senso mas o destino encarrega-se de nos guiar. O que não é para ser, não tem de ser.


Acordo cedo. O céu está azul lindo. Hoje posso recuperar os km que não fiz ontem. E ainda bem que não fiz. A experiência foi fantástica.

Movida pela curiosidade, ainda entrei no túnel que dá acesso à famosa estrada. Fiz apenas 2 km e voltei para trás. Foi suficiente para perceber que a estrada seria perigosa para alguém como eu sem experiência de todo o terreno. Mas a paisagem é fabulosa. 



Para sair do emaranhado de curvas e montes levei umas horas. A paisagem é espectacular, do cimo das montanhas avista-se a garganta e o rio lá em baixo que corre pachorrento. Tudo em harmonia.

Na primeira vila paro para petiscar. Senti o cheiro de uma pastelaria a chamar por mim. Duas Liras (0,60€) por um chá e bolos. Já tenho farnel outra vez.








O destino hoje é o monte Nemrut, para Sul. Mais uma recta sem fim até Malatya. Tinha visto no Google maps que há ligação para o Monte Nemrut. À entrada da cidade páro numa bomba de gasolina. Abasteço e oferecem-me chá. Claro. Pergunto o caminho. Ninguém sabe e ninguém fala inglês. Um dos empregados faz uns telefonemas. Passa-me o telemóvel onde alguém do outro lado fala inglês. Explico o que quero. Responde-me um homem, em bom inglês que organiza excursões a Nemrut e que posso ir ter com ele ao centro que trata de tudo. Só me faltava mais esta. Digo que sim e durante a conversa percebo que há estrada e que é boa. Sim, vou ter ao centro. Arranquei a rir-me. Bem podia esperar por mim. 





À saída da cidade há sinalização para Nemrut. Vou seguindo as placas, subindo mais uma montanha até que a estrada fica a pique, um horror de inclinação. Uma espécie de Stelvio cá do sítio. De repente, no alto, a estrada acaba. Só um pequeno hotel e uma carrinha que tinha visto vir sempre à minha frente. Mais nada. Sai o dono, cumprimenta e pergunta se tenho reserva. Não estou a entender nada disto. Afinal onde são as estátuas?





Acabo a perceber que não há ligação para o lado Sul do monte. A estrada acaba ali. As estátuas são 10 km mais acima, por uma pista. Estou perdida. O dono tenta vender-me a estadia no Hotel. O preço é exorbitante. Invento uma história que tenho uns amigos à espera do outro lado, a Sul. Diz-me que só voltando a Malatya e dar a volta. São uns 200 km. Devo ter feito uma cara tão desolada e infeliz que acho que teve pena de mim. Diz-me que há uma alternativa - fazer uma pista de 4 km, a partir da última aldeia lá em baixo e depois vou ter alcatrão de novo. Contorno o monte, por estradas rurais, 40 km e estou do outro lado.

E agora? Tenho medo de pistas e já me imagino perdida no meio dos montes. Cansada, suada, depois quase 300 km, às 4h da tarde é a última coisa que me apetece é fazer off road.

Olhei para a carrinha e tive uma ideia. Perguntei-lhe se o motorista podia ir comigo até ao próximo alcatrão e se fazia um bom preço. Negociamos. Lá vou eu, devagar numa estrada de terra, com curvas de susto, para cima e para baixo, não se vê ninguém. Só a carrinha no meu retrovisor. Uma das curvas é tão apertada e a descer que gesticulei para o motorista me ajudar a passar a moto à mão. Depois tenho de esperar que a carrinha faça a curva. Que raio de aventura.

Nem tenho vontade de tirar fotos. Só quero sair daqui. Vou a olhar para o conta-km a ver quando acaba este suplício. Passou os 4 km e a pista não acaba. Afinal são quase 10 km de terra e susto. Chegamos ao alcatrão e despeço-me do meu acompanhante. Tenho um mapa desenhado pelo dono do hotel com a sequência de aldeias a fazer para chegar ao cruzamento de Nemrut.

Só quando regressei é que descobri que tinha a camara a filmar o tempo todo. Ao visionar o filme percebi que fiz uma estrada com uma vista fantástica. No filme a pista até nem parece assim tão má. Estava tão nervosa que nem aproveitei o passeio. Só de pensar que no dia anterior andei com ideias mirabolantes de fazer a estrada das pedras .... Só nestas ocasiões é que sinto falta de ter companhia em viagem. Seria mais seguro ter alguém por perto ou ser uma estrela de cinema e andar com uma equipe de produção atrás. A realidade é que ... há limites para a aventura se queremos ter a certeza de voltar a casa.

Chego ao cair da noite já com pingas de chuva a cair. Subo o monte e começam a aparecer pensões com aspecto esquisito. Encontro uma com bom ar. Estaciono. Sai um jovem sorridente a saudar-me. Fala um inglês razoável e anuncia que tem quartos e serve jantar. Um casal ocidental passa por nós. Metem conversa, são alemães e dizem que o local é simpático, é a 2ª vez que aqui ficam. Ficamos à conversa e a beber chá.

O quarto é básico, uma cama e nada mais. O chuveiro é na parede e funciona mal. É o que se arranja. Mas o rapaz é uma simpatia e o jantar com os alemães ajuda a tornar a noite mais confortável. Contam que estão reformados e vivem em Alanya. Andaram por Portugal e Espanha à procura de casa mas era tudo caro (já ouvi esta história). Adoram viver cá (mais tarde contaram-me que há tantos alemães na zona de Alanya que lhe chamam “Little Berlin”)





Esta viagem tem corrido ao sabor do vento e do acaso. O temporal não me larga e condiciona os meus planos. Ainda não consegui cumprir os horários nem as paragens que tinha planeado em cada dia. Tudo me tem acontecido e acabo sempre num sítio diferente do que tinha pensado. Há dois dias que me acontece tudo e cada vez mais insólito. Começo a pensar que esta viagem não é turística mas sim uma experiência de vida.

Acordo com o som da chuva a cair. Bátegas leves que me fazem pensar que tenho de ajustar os planos outra vez. Chego ao restaurante e encontro o simpático casal de alemães. Ela diz em tom de brincadeira – é melhor ires dormir de novo pois assim é desagradável subir ao monte. Não, respondi. Não posso deixar que a chuva me impeça de fazer coisas. Tomo o pequeno-almoço com calma sempre a olhar pela janela. A chuva abranda, pinga leve. Decido arriscar. Visto o fato de chuva e subo os 17 km até ao topo do monte Nemrut. Estrada de paralelo arrumadinho, bom piso, curvas ligeiras, bem diferente da escarpa que subi ontem. Lá em cima o vento sopra tão forte que quase vou ao chão. Uma rampa muito inclinada, onde a muito esforço consigo estacionar a moto contra o vento. Penso que não vai ser fácil tira-la daqui.

Há um pequeno café onde também vendem souvenirs e tapetes e chá e um senhor simpático que me saúda. Faz sinal que guarda o capacete. Há um passadiço com degraus para subir ao topo. Uma série de passadiços fazem a volta ao monte. Sobe-se por um lado, desce-se pelo outro. Estou sozinha, não há turistas. Chuva ligeira. Vento forte. Vou subindo, lentamente, estou a 3.600 metros altitude. Canso-me depressa. O vento não pára. Partes do caminho são carreiros em gravilha e degraus de pedra. Por vezes as botas resvalam. Tento manter-me direita contra o vento. Vou subindo bem devagar. Meia hora de subida e chego ao 1º patamar. As estátuas estão cá. A olhar o horizonte sem fim.

Classificado pela UNESCO, as ruínas do túmulo do rei Antíoco I são constituídas por 2 terraços e um altar. Um templo a céu aberto cheio de estátuas de leões, águias e estátuas gigantescas dos deuses Apolo, Zeus, do meio-deus Hércules, da deusa da fertilidade e outros.






Parou de chover. Tiro umas fotos. Dispo o fato de chuva. Estou a transpirar. Sozinha no topo do mundo, só o vento e eu. Sopra-me nos ouvidos, fala-me uma linguagem que até entendo. Ou então estou a ficar maluca. Começo a falar com ele, respondo-lhe, falo sozinha. Rio-me da minha figura. Entretenho-me a fotografar-me usando o temporizador da máquina. Não acerto com isto, preparo o disparo e a foto apanha-me a meio caminho. Lá consigo umas fotos razoáveis. E rio-me. Ainda bem que estou só. A minha figura iria chocar qualquer turista na área.

Só eu, o vento e este topo do mundo onde sinto uma energia forte, vinda das entranhas da terra que me envolve e abafa. Transpiro. Rio-me. Será demência? Não sei, só sei que me sinto bem. O olhar espalha-se pela paisagem carregada de nuvens. Liberdade, horizonte sem fim. 

Duas semanas por ano são minhas. Sem responsabilidades, sem tarefas, sem horários, sem relógio, com destino mas sem rumo. Eu e um mundo enorme para descobrir. Livre. Feliz. Estou bem!


Contorno o monte, começo a descida para o 2º patamar. Mais estátuas, cabeças que rolaram dos corpos e se espalham na encosta. Resultado de um rei que devia ser tão louco como eu. Mandou construir aquelas formas que vigiam o horizonte, quase que a guardar ou proteger o mundo. O tempo fez rolar as cabeças. Reis, animais, santos. Ícones de uma civilização de outros tempos. Outras crenças. 





É tempo de descer. É mais fácil agora, o passadiço é inteiro, não há carreiros de gravilha. No pequeno café sento-me a descansar. O dono oferece chá. Estou a mentalizar-me para descer o monte, a rampa a pique com este vento. Com gestos, peço ajuda para virar a moto. Um homem que deve ser motorista de uma das carrinhas que entretanto chegou fala um pouco de inglês. Veio ajudar.

Monte abaixo, o vento fica mais suave. Páro no Hotel para ir buscar as malas. Ninguém à vista. Entro na cozinha deserta, passo para a sala comum e está o dono a dormir num sofá de tapetes. Demorei uns 5 min a decidir se o acordo. Abre os olhos, pediu desculpa atrapalhado e vai buscar chá. Sentados no restaurante comunico ao rapaz que vou abastecer no posto de gasolina que tinha visto lá em baixo no dia anterior. Ri-se e diz que aquele posto só tem gasóleo para os tractores. No benzine. A estação mais próxima é a 50 km. Fico assustada. Depósito no fim da reserva.

No problem, disse. Pega no telemóvel e depois de 3 telefonemas manda-me descer até à 2ª aldeia. Vou meter gasolina na mercearia local, uma garrafa plástica de 1,5L. É assim na Turquia. Tudo se resolve. No problem.

Estava eu a pensar que existiam bombas por todo o lado. Mas só nas estradas principais. Nestas estradas rurais, posto de abastecimento só tem gasóleo para tractores e camiões. Já me livrei de mais uma. Sigo caminho. 


O último objectivo da minha viagem é a zona de Sanliurfa, apenas a 200 km daqui. Rumo a Kahta para atestar e almoçar. Mal saio da cidade rebenta o temporal. Granizo, raios e trovões tão fortes que tenho de cruzar a via rápida em contramão para me abrigar numa bomba de gasolina do outro lado. O céu desabou. Pareço um pinto molhado, escorro tanta água quanto a que cai do céu.

Três empregados velhotes convidam-me para entrar no escritório e, claro, oferecem-me chá. Nenhum fala inglês. Gesticulamos mas não nos conseguimos entender. Simpáticos. Cá fico sentada a ver danças turcas na TV à espera que o temporal acabe. Mas não acaba, parece que fica cada vez pior. Decido voltar para trás. Vai ser difícil cumprir o plano hoje.

Entro em Kahta à procura de hotel. Na avenida principal, vou devagar à procura de um letreiro que diga "Otel". Uma carrinha desata a buzinar atrás de mim. Encosto para o deixar passar. Pára ao meu lado e pergunta se preciso de ajuda. É o senhor que me ajudou a virar a moto no cimo de monte Nemrut. Digo-lhe que procuro um hotel. Faz sinal para o seguir. O irmão tem um hotel a 50 metros. Bom aspecto. Não pára de chover. Decido ficar. O preço é bom. A casa de banho tem um chuveiro a sério. E água quente e secador de cabelo. Estava com saudades de um banho quente numa casa de banho em condições.

Obra do acaso ou não há acasos. Tinha de ser. Ao sabor do vento e da chuva as coisas vão acontecendo. Há uma estrelinha que brilha através do temporal e ilumina o meu caminho.

Passo a tarde debaixo de um agradável telheiro a escrever. O dono vem meter conversa. Fala mal inglês. Está com outro homem, emigrante em Itália. Entre bocados de inglês e italiano passamos horas a falar sobre Portugal, Turquia e religião. São muçulmanos moderados. Perguntam sobre a minha religião. Respondo que sou Budista e que não entendo as religiões porque os homens matam em nome dela. Aceita a explicação mas faz questão de me contar toda a história do Islão. Está um calor húmido que faz lembrar o clima da Índia. A conversa acaba porque os homens vão rezar. O altifalante da mesquita começou a cantar.



Consulto a meteorologia. Dão chuva para os próximos dias. Tenho de tomar uma decisão. É uma parvoíce continuar com o itinerário planeado debaixo de chuva. Vou voltar para Antalya mais cedo. Ainda são uns mil km até lá.

De manhã, já pronta para partir, o homem corre para mim. Traz-me um presente que oferece com deferência e deseja que Alá me acompanhe na viagem. Não podia ficar mais surpreendida. Este mundo é uma caixa de surpresas!

200 Km a Sul há uma auto-estrada que vai para Tarsus. O céu está carregado de nuvens cinzentas. Vou seguindo viagem e tentar fazer o máximo de km possível. Antes da auto-estrada páro num café. Começa a pingar água. O dono explica-me que as portagens são todas electrónicas e que para pagar a AE tenho de comprar um cartão de pagamento. Não te preocupes, é fácil, diz ele. Na saída, mesmo antes das portagens tens um posto onde compras o cartão e pagas o percurso que fizeste.

Mais 270 km debaixo de chuva intensa, no meio de filas intermináveis de camiões a respingar água. Estou tão cansada. No posto de controlo da AE tenho de dar o passaporte e carta de condução para emitirem o cartão e pagar. É um guichet e estou de capacete posto tal é a quantidade de água que cai.

Entro em Tarsus à procura de Hotel. Pouca gente na rua por causa da chuva. Caminham abrigados nos toldos das lojas. Páro à porta de uma barbearia e faço sinal a um homem que olha para fora. Deve ser uma coisa nunca vista por aqui pois vêm todos cá fora falar comigo. Indicam-me um Hotel que é barato, mesmo na rua principal, 100 metros aqui à frente. Entro no Hotel e escorro água pelo corredor. O velhote da recepção abre um sorriso e desaparece. Foi buscar uma esfregona para limpar o chão. Só depois fala comigo. Por gestos peço um quarto para dormir e pergunto sobre garagem para a moto. Dez euros pelo quarto e diz que posso por a mota no corredor.

Descarrego a mala e o saco e ajuda-me a entrar com a moto. O guiador não cabe na porta de vidro. Aparece um polícia e o fiscal da EMEL cá do sítio. Dizem para deixar a moto em cima do passeio, junto à estrada. Sem problema, ninguém mexe. Eles andam por ali toda a noite e sabem que a moto é de uma Portuguisi que anda sozinha a viajar. 







Bem cedo, tomo o pequeno-almoço e carrego a moto. Dou por falta dos elásticos para prender o saco. Deve ter sido na confusão de ontem a tentar arrumar a moto debaixo daquele temporal. O velhote da recepção apercebe-se do meu ar desorientado. Por gestos tento explicar que não posso amarrar o saco ao banco. Sorri e faz sinal de espera. Sai rua acima e volta uns minutos depois com dois elásticos fortes e coloridos. Consigo perceber que há uma loja de bicicletas perto. Problema resolvido por 2,5€. Abana a cabeça de contentamento e repete – No problem. 

Sim, na Turquia parece que nunca há problemas. Tudo se resolve. Gosto disto!

Daqui tenho dois caminhos para regressar a Antalya. Pela costa, numa estrada lenta, perigosa e entupida de camiões ou pela via rápida que vai dar a volta por Konya. O velhote aponta para o mapa e faz sinal que pela costa não. Bate com o dedo em cima de Konya. São 100 km a mais mas muitas horas a menos. Sigo o conselho. Lá vou ter de fazer outra vez aquela planície batida pelo vento.






Da parte da tarde começa a chover outra vez. Ainda nem consegui secar o fato da chuva de ontem e já estou encharcada de novo. As botas andam ensopadas há 3 dias. Estou farta de chuva e de vento e de camiões. Conduzo até aguentar. Antes de atravessar as montanhas que me separam de Manavgat entro numa pequena cidade. Deve ser mais fácil arranjar alojamento aqui que num local muito turístico. Ando para baixo e para cima na avenida principal à procura de hotel. Nada. Decido entrar numa loja e perguntar. Indicam-me um na 2ª rua à esquerda. Está lotado mas o recepcionista manda-me para outro no cimo da avenida principal, já no extremo da cidade.

Sou recebida por uma simpática senhora. Não têm garagem mas não há problema de a moto ficar à porta debaixo da câmara de vigilância. Ainda tenho tempo para uma volta na cidade. Não há turistas por aqui. Todos me olham com ar curioso. No restaurante, a meio do jantar, os rapazitos da cozinha vêm-me pedir para tirar uma foto. Muito contentes e orgulhosos fazem pose ao meu lado. Devo ser um extra terrestre por aqui. Uma mulher sem lenço na cabeça, vestida com um blusão enorme e colorido e sozinha a jantar. A pergunta da praxe “where r you frome?” e depois não sabem dizer mais nada em inglês. Deixam-me tirar umas fotos da cozinha. 









Hoje o caminho é curto e vou visitar alguns locais turísticos. Subo as Taurus Mountains sob um céu cinzento. Raios da chuva sempre a ameaçar. A estrada é retorcida e atravessa vários desfiladeiros. Quando passo para o outro lado da montanha as nuvens são brancas, fofas. O Sol brilha. No horizonte reina o azul. Sabe tão bem sentir o calor. Estaciono na berma da estrada. Ao sol. Tiro o casaco e penduro no rail. O fato de chuva também. Tiro as botas. Deito-me no chão, ao sol. Finalmente não cai água. Não sei quanto tempo passou. Só sei que as botas secaram e eu tenho a cara vermelha. Passaram poucos carros.


A pior parte das viagens é perceber que está a acabar e que o tempo passou muito depressa. Parece que ainda ontem cheguei e daqui a 2 dias embarco de volta. Um sentimento de completa satisfação porque cheguei aqui e de completa insatisfação porque quero mais. 







Continuo a descida para a costa. Vou visitar as cascatas que vinham anunciadas nos sites de turismo. Pago para ver umas pequenas quedas de água. Uma entrada ladeada de lojas e restaurantes. Dezenas de turistas russos e chineses. 

Conheço em Portugal umas 3 ou 4 cascatas e quedas de água que nem aparecem anunciadas e são bem mais bonitas que estas. Os Turcos são parecidos com os Ingleses. Qualquer monte de pedras com mais de 100 anos é referência histórica e turística com direito a placa castanha de sinalização. Há tantas espalhadas ao longo das estrada que se fosse parar em todas levava um dia inteiro para fazer uma centena de Km.  É uma pena e frustração Portugal não preservar o património cultural e natural que tem. Ao nível do que melhor se encontra por aí. 


A estrada da costa, entre Manavgat e Antalya é das mais perigosas por onde andei. Uma espécie de N125 com o dobro dos carros e dos semáforos e a condução agressiva dos Turcos. Estou satisfeita por ter vindo pelo interior. Afinal o Sr. do Hotel em Tarsus tinha razão.

Chego finalmente a Antalya um dia mais cedo que o previsto. O voo de regresso é amanhã à noite. Entro na cidade pela praia – Lara Plaji. É Domingo e as famílias vieram passear ao sol. Um areal extenso. No pequeno rio que desagua aqui estão estacionados barcos piratas dos cruzeiros para turistas.






Ao final da tarde vou entregar a moto. Mr Guven está muito contente. Obriga-me a contar as peripécias todas da viagem. Vai acenando com a cabeça, por vezes ri-se. Está muito satisfeito por a moto não precisar de nada. Orgulhoso diz que fez uma revisão muito cuidada antes de eu partir para garantir que não tinha nenhum contratempo. É verdade, esta Yamaha 660 portou-se muito bem. 

Estou satisfeita por ter escolhido esta empresa. Asseguram assistência técnica no país todo, o que me deu muita confiança pensar que em qualquer eventualidade bastava fazer um telefonema. E mais, Mr Guven emprestou-me um telemóvel turco. Durante a viagem carreguei um total de 9 euros e telefonei todos os dias (grande poupança de roaming).


Último dia de férias. Dou-me ao luxo de dormir até às 9 horas da manhã. Pela primeira vez em duas semanas não estou na estrada de madrugada. O Hotel é nos arredores da cidade. Há um autocarro para o centro, o bilhete custa 60 cêntimos e o condutor avisa-me onde devo sair. Vou fazer as últimas compras.











Está um dia de sol lindo. Decido ir fazer um cruzeiro num daqueles barcos piratas em madeira. Na marina há dezenas de angariadores para os passeios de barco. Vendem cruzeiros para qualquer um, o que estiver de partida mais cedo. Começo por dizer que não a todos. Ando por ali a tentar ouvir as conversas com os turistas. Consigo perceber os preços que fazem. Sento-me numa esplanada e peço um café turco. Estou fã deste café. É espesso, cremoso, forte.




O empregado vem meter conversa. Fala um pouco de inglês. Pergunta-me se não vou fazer um cruzeiro. Respondo que gostava mas é muito caro. Abana a cabeça a dizer que não. Chama o homem que está junto ao barco mesmo aqui à frente. Falam rapidamente e o homem apresenta-se como dono do barco. Digo-lhe que acho muito caro e no fim das férias já não tenho dinheiro. Faz um preço, mantenho o Não. Pergunta quanto posso dar. Contraponho um valor. Negociamos e acabo com um preço de menos de metade do que ouvi os outros turistas a pagar. Fixe. Vou passear.

No cruzeiro vou EU e um grupo de turistas árabes. Olham-me com curiosidade. As mulheres sentam-se todas juntas a conversar e a rir. Os Homens muito animados dançam ao som da música. Mas só os homens dançam. O capitão do barco é grego. Parece um velho lobo-do-mar dos livros de histórias. Até fuma cachimbo.

Mais uma vez me sinto um extra terrestre. Os turistas árabes não descolam os olhos de mim. As mulheres vêm discretamente sentar-se ao meu lado para tirar fotos. Voltam para o meio do grupo muito satisfeitas. Quando chegamos à grande cascata peço ao capitão para me tirar fotos. Estou contente e faço poses divertidas. Algumas das jovens perdem a vergonha e juntam-se a mim. De repente estão todos a tirar fotos de braços abertos. Rimo-nos todos.

O barco navega junto à costa. Desfilam os resorts, uns a seguir aos outros. Não há praia, apenas falésia. As praias dos hotéis são plataformas construídas na rocha com espreguiçadeiras e chapéus-de-sol.

São duas horas de relaxe, sob um sol quente, a descansar o corpo dos Km de chuva. Mais uma aventura com final feliz!












Parti a pensar que a Turquia era um país complicado, estradas ao estilo de Marrocos e problemas de Médio Oriente. Coisas que lemos nos jornais. Enganei-me redondamente. Encontrei uma terra fantástica de gentes hospitaleiras, um país limpo e organizado, paisagens de sonho e culinária para gulosos. Tudo isto com um forte travo de oriente e exótico. Quero lá voltar!





Quando ir
O clima da Turquia é semelhante ao nosso. Inverno frio e verão quente. Pode-se visitar em qualquer época do ano. Apenas no inverno não se consegue andar pelas montanhas pois as estradas estão cortadas pela neve.

Estradas e gasolina
Das melhores estradas onde rolei até hoje. Largas, bom piso, devidamente sinalizadas. Todas as estradas vermelhas do mapa são vias rápidas com 2 faixas para cada lado. Até as estradas rurais fazem inveja às nossas ICs. A auto-estrada é cara. Não há portagens, tem de se comprar um cartão electrónico. Há postos de abastecimento em todo o lado. Nas vias rápidas chegam a ser de 20 em 20 km. Em todos os postos de gasolina o empregado grava o número da matrícula. Vem impressa na factura.

As únicas coisas caras na Turquia são a gasolina e as multas de trânsito. A gasolina está a cerca de 1,7€. Os limites de velocidades são iguais ao resto da Europa com a “única” diferença que há camaras de vigilância por todo o lado. As multas seguem direitinhas para casa. Todos os turcos sabem que … 121 km/h … multa!

Alimentação
Culinária turca é deliciosa. A Turquia é o país dos kebabs e donner kebabs, dos simmit (roscas de pão deliciosas) sopa de lentilha, guisados e molhos de iogurte. Condimentada e picante q.b. Os restaurantes de rua são baratos (uma refeição completa pode variar entre 3€ e 7€). Também há restaurantes mais caros, geralmente com fantásticas esplanadas, onde a variedade de entradas destrói qualquer dieta. Para os Turcos, uma refeição não é só para comer mas, principalmente, para conversar.

Alojamento
Em todas as cidades e vilas há Hotéis e “Pensions”. De vários preços. Na generalidade com preço muito razoável. Como viajei em época baixa os preços foram mais baratos. Os quartos são asseados, os colchões das camas são todos rijos. Só usam lençol de baixo e capas de édredon. Nas pensions não há duche ou banheira, o chuveiro está na parede e há um ralo no chão. Todos os alojamentos, caros ou baratos, têm chinelos de quarto selados em plástico. Há Internet wireless em todos.

Dinheiro
A Lira turca está a cerca de 0,3€ (valores de Maio 2014). Há bancos em todas as vilas e aldeias onde se pode levantar dinheiro, quer com cartão de débito quer com crédito. Nas cidades turísticas há várias casas de câmbio abertas até tarde. Pode-se pagar com cartão de crédito em quase todo o lado – bombas de gasolina, hotéis, restaurantes e até em algumas lojas. 


Nota: Este texto NÃO segue o acordo ortográfico.