No Reino do Dragão 


Sikkim - Bhutan Tour 2013


Duas semanas a viajar pelos Himalaias. Paisagens fantásticas, templos coloridos, uma sociedade diferente. Uma viagem que não foi apenas andar de moto. Teve uma componente cultural e de aprendizagem muito forte.


Parte I 
(há mais para ler)

Tudo começou por uma pesquisa na Internet. A intenção era ir ao Tibete mas descobri que os chineses só dão visto de entrada para grupos com um mínimo de 6 pessoas, todas da mesma nacionalidade. Achei que em cima da hora seria complicado arranjar mais 5 aventureiros Tugas para embarcar nesta aventura.

Pesquisei de novo e descobri uma viagem pelo Norte da Índia e Butão. Afinal há alternativas para viajar pelos Himalaias. Contactei o organizador. Respondeu-me que o Tour estava completo. Insisti e perguntei se o completo era mesmo cheio ou se dava para mais uma. Levou 4 dias a responder. Primeiro deu-me os parabéns pelas viagens que eu já tinha feito (claro que quando o contactei lhe mandei o link para os meus blogues) e muito polidamente informou que até conseguia ter mais uma vaga mas que eu seria a única mulher. Não há problema, respondi. Estou habituada. E prontos, formalidades de visto, seguro, aviões e está feito. Parto daqui a um mês. Muito em cima da hora, como de costume.



SÁBADO, DIA 16 MARÇO 2013 

O pior de uma viagem para o outro lado do mundo é chegar lá. Por terra iria demorar uns 3 meses mas ia divertir-me bastante de certeza. Como não tenho este tempo, a alternativa é avião. Bem mais cansativo que por estrada, saltitar entre aeroportos, num mesmo dia acertar o relógio várias vezes e perceber que a hora de almoço afinal já é hora de jantar. Um dia inteiro a mudar de avião e de país, as horas passam e o cansaço vence.

Desembarco em Dheli ao nascer do sol. O meu relógio marca 3h da manhã e o relógio do aeroporto marca 9:30h. O transfer obriga a mudar de terminal. Uma hora dentro de um autocarro que já devia estar num museu há 20 anos, 3 avenidas atulhadas de trânsito. O céu está carregado, cinzento da poluição, a adivinhar a onda de calor anunciada para estes dias. À entrada do Terminal 1 há uns quiosques de comida. Aproveito a brisa fresca que ainda sopra e engulo um queque de amêndoa com chá. O meu organismo pergunta-me se é uma ceia ou o pequeno-almoço. Estou demasiado ensonada para lhe explicar que estamos do outro lado do mundo, com outros ritmos.

Uma fila de táxis redondos, pretos e carunchosos alinha-se frente ao terminal. No ar voam uns pássaros parecidos com pombos mas que grasnam como corvos. Cheira a caril e a pudim de coco. Há 18 horas que ando no ar. Sinto-me transpirada e incomodada. No duty free do aeroporto há lojas de perfumes. Escolho um que me agrada, pego na embalagem de teste e borrifo-me de perfume. Sempre disfarça a sensação de precisar de um banho. Os altifalantes metralham números de voos, portas de embarque e nomes de passageiros em falta. Em Hindu e em inglês, uma ladainha que me mantém acordada.




Finalmente em Bagdogra. São 2h da tarde. Fui a última a chegar. Já cá estão os 9 alemães que fazem parte do Grupo de aventureiros. Enfiamos as malas no tejadilho dos jipes. O guia pergunta-me se perdi alguma mala. Sou a que tem menos bagagem. Os outros trazem grandes malas de viagem e mais sacos. Começo a sentir-me esquisita.




Rumo a Siliguri, a vila onde começa o Tour e onde as motos nos esperam. Chamam autoestrada a uma avenida interminável com um trânsito caótico. Dá para mentalizar do que nos espera. Camiões e vacas. As estradas da Índia são sempre um desafio e uma surpresa.

Chegamos ao Hotel. Enquanto eles foram experimentar as motos eu corri para o restaurante do hotel. Estou esfomeada e só há torradas a esta hora. Durmo até à hora de jantar. Ligo para casa. Em 2 minutos o roaming cobra-me 10 euros. Desligo o telemóvel (e só o liguei 2 semanas depois).

Somos um total de 10 aventureiros, 9 alemães e uma portuguesa. O guia do Tour é Butanês. Nenhum de nós se conhece à excepção de 3 amigos dentistas de Munique. Não fazemos grandes apresentações. Cada um diz o nome e de onde é. Também não é necessário grandes conversas, estamos todos aqui para passear de moto. Vamos estar juntos 24h por dia durante duas semanas. Temos tempo de conversar. 


DOMINGO, DIA 17 MARÇO 2013 

O dia começa às 6h da manhã. Tenho o jornal do dia pendurado na porta do quarto. Influência inglesa. O pequeno-almoço são torradas e chá. No buffet há mais pratos de comida mas todos cheiram a picante. Estou condenada a torradas durante as próximas semanas. Isto começa bem.







Uns 10 km de planície e trânsito infernal. Camiões, rickshaws, bicicletas, peões e vacas. Muitas vacas no meio da estrada. Mais preguiçosas que as do Kerala, nem abanam a cauda. Ali estão, impávidas e serenas como se a estrada fosse um campo de relva. E calor. Abafado pelo céu cinzento de fumo.





Perguntei ao guia se era sempre assim. Respondeu-me que em 9 anos que anda nesta região não se lembra de ver o céu azul. Depois começamos a subir a montanha. De Siliguri a Darjeeling uma estrada estreita que acompanha uma velha linha de comboio que vem de Calcutá (Kolkata) até às montanhas. À volta da linha de comboio cresceu uma estrada e nasceram pequenas vilas e aldeias confusas. Do lado da encosta as casas encaixam dentro da montanha, espalmam-se ao longo das curvas. Do lado da falésia as casas encavalitam-se em estacas, de frente para a estrada num equilíbrio frágil. Toda a vida se alinha junto ao alcatrão esburacado e comido. Habitações, lojas, artesãos e mais a linha de caminho-de-ferro que vai subindo lentamente montanha acima.




















Aqui não há silêncio. Reinam as buzinadelas em cada curva apertada, cotovelos sem fim. Partes da estrada estão em obras, homens espalmam o alcatrão a ferver com pedaços de madeira e ferro. Artesanal. Ao atravessar uma cidade confusa a moto começa a abanar, a traseira a resvalar. Um furo, logo no primeiro dia. Tinha de ser eu. O mecânico salta do carro de apoio com uma jante completa e em 5 minutos muda a roda. Agora tenho uma jante da cada qualidade. Uma racing e outra de raios. Deu-me um ataque de riso. Dizem que na Índia tudo é possível. Acredito!












Nesta paragem encontramos um grupo de turistas alemães. Na paragem seguinte a mesma coisa. Os meus
companheiros de viagem (todos alemães) acham que a Alemanha está cá toda de férias.

Darjeeling está situada no West Bengal a 2.000 metros de altitude. Uma cidade nas montanhas do Lower Himalayan Range que era a estação de férias dos ingleses. Vinham para aqui apanhar o ar fresco da montanha e fugir ao calor abafado das planícies. É também famosa pela indústria do chá, um dos mais apreciados chás pretos. Também é conhecida pelo caminho-de-ferro himalaio de Darjeeling, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO. 

Quatro horas para fazer 80 km. Entramos em Darjeeling pela estação de caminho-de-ferro. Locomotivas do princípio do século passado, movidas a carvão. Carruagens estreitas com bancos corridos. Parece incrível como as máquinas ainda funcionam e fazem dezenas de km duas vezes por dia naquela linha de comboio.








Chegamos ao Swiss Hotel perto da hora de almoço. Uma entrada agradável disfarça uns quartos medonhos. Está frio, o quarto tem mobília do tempo do meu tetravô, a casa de banho tem um chuveiro no tecto. Mas é considerada quase um luxo por estas bandas.


















Há uma enorme banheira cravada no jardim. Parece que foi utilizada num Hotel da região que teve de preparar uma casa de banho especial para o actor de cinema Robert Redford. Depois de ele ir embora, ninguém quis a banheira e o dono do Hotel trouxe-a. Agora serve de lago onde bóiam flores artificiais. 







Vamos almoçar a um restaurante tibetano que segundo o nosso guia é o melhor que se encontra por cá. Um restaurante minúsculo que se encheu connosco. Sopa de legumes com pão indiano e MOMOS de carne e legumes.
MOMOS é um prato típico do Nepal e Tibete. Uma massa de farinha e água enrolada com carne ou vegetais temperados com cebola, alho e gengibre. Os bolinhos são depois cozidos ao vapor. 





Depois vamos dar uma volta pela cidade, seguimos por uma rua cheia de gente até ao passeio dos ingleses, um passadiço de calçada de pedra que circunda o pico da montanha e onde os ingleses vinham passear. Ao longo do caminho vêm-se muitos turistas e vendedores de rua, com panos estendidos cheios de bugigangas, lenços, xailes, gorros e roupa.

Nas ruas da cidade reina a confusão. Nota-se uma grande mistura de raças. Pessoas de baixa estatura, magros, pele escura, Hindus. Pessoas altas, bem constituídas, pele clara, olhos rasgados, Nepalis. Têm um ar superior. Não se desfazem em vénias como os indianos.




















Há cabos de electricidade espalhados pelo ar e dezenas de canos de água que rompem as paredes, atravessam o alcatrão em todas as direcções. Cada um faz uma ligação directa ao cano do vizinho. Na praça principal um cantor local faz um espectáculo de rua, uma aparelhagem de som rouca e estridente, muitos locais a bater palmas. Um mimo.





Depois de jantar dou de caras com o dono do Hotel que me cumprimenta com deferência. Teve azar. Reclamei logo do chuveiro e da canalização que não funciona. Tive de me lavar às prestações, de joelhos, debaixo de uma torneira que pinga meia dúzia de gotas de água. Fez um ar aflito e consternado. Manda o recepcionista ligar para o canalizador. Fitas da Índia. Eles dizem que fazem só para agradar aos turistas. Daqui a uns anos a torneira está na mesma. Mas pronto. Estou em modo de não me chatear.

Começamos à conversa sobre o país e sobre Darjeeling, cujo nome tem origem na região conhecida pela terra das trovoadas e dos trovões (dargong significa raio de trovão). Diz que é um local de grande magnetismo onde se sente a vibração da terra. Muitas pessoas de diferentes religiões vêm cá para rezar neste local mágico. Uma longa conversa sobre religião e espiritualidade, sob as estrelas, ao frio, no jardim.

Aqui a previsão do tempo é dada pela direcção do vento e pelo voo dos pássaros. Como estamos longe do mar, a temperatura varia conforme a direcção do vento. Se sopra das montanhas trás nuvens e frio, a pressão atmosférica sobe, os insectos voam perto do chão e os pássaros voam baixo à cata dos insectos. Se o vento vem da planície trás temperaturas quentes, a pressão diminui, o ar aquece, os insectos voam mais alto e os pássaros também.





SEGUNDA-FEIRA, DIA 18 MARÇO 2013 

Ao pequeno-almoço todos se queixaram do frio e dos colchões e da falta de água. Afinal não sou só eu. Um frio de rachar que me obrigou a tirar os cobertores da outra cama. Um colchão que mais parecia uma tábua. E todos tomaram banho em prestações. Um grupo de mal-lavados.

A manhã acordou limpa. Durante a noite o céu estrelado disse que as nuvens passaram para a planície. Vamos ter um dia bom. Atravessar Darjeeling é um tormento. As ruas são um amontoado de terra, pedras, buracos, água que escorre estrada abaixo, peões, buracos e crateras medonhas. E eu que nem gosto de TT tenho de subir serra acima por uma nesga de terra entre as crateras. Só tenho olhos para o caminho. Nem consigo levantar a mão do volante para ligar a câmara de filmar. Estou apavorada a pensar que o caminho vai ser todo assim. Quase uma hora para sair da cidade e entrar em estrada aberta.












Afinal é só na zona mais urbana que a estrada não existe. Depois daquela prova de perícia até acho a estrada boa. Relativamente. Estrada estreita, a subir a encosta, asfalto picado. Muito trânsito. Por vezes a estrada está em obras. É um tormento passar por cima da areia, dos buracos, sempre com atenção às pedras que rolam da encosta e aterram no meio do caminho. Já entendo porque se vêem tantos jipes por aqui. Com estas estradas é o único meio de transporte que consegue circular. Os carros normais partiam-se todos nos buracos.

Com o trânsito de camiões e as obras na estrada, andar a 40 km/h é uma velocidade estonteante. E sempre a subir. Do outro lado da montanha descemos para o vale. A estrada está comida dos lados, deixa uma pequena faixa de alcatrão sujo por onde todos querem passar. Camionetas ferrugentas carregadinhas de gente, camiões gigantes, todos correm estrada abaixo, parece uma montanha russa. A descida é a pique, levo a moto com a 1ª engatada e travões a fundo. Até cheira a queimado.




Circulamos por entre plantações de chá numa estrada mais larga. Até respiro de alívio. Há macacos e palmeiras à beira da estrada. Debaixo de um sol escaldante, atravessamos vilas estreitas atulhadas de carros estacionados na estrada, um caos até para passar de moto. Estamos sempre a parar à espera que passe um camião ou a admirar a incrível manobra de passagem de dois camiões sem deitar nenhuma casa abaixo. A estrada corre junto ao rio, por vezes picada e cheia de lombas, outras vezes em melhor estado. Já percebi que junto às povoações a estrada está pior. Nas encostas, a subir e descer, por vezes apanhamos bocados de estrada razoável. Nos parâmetros indianos, claro. As pontes são estreitas, com o piso em madeira, dois carreiros por onde se alinham os pneus. Uma delas nem tinha chão para lá das placas de madeira. Bem-vindos à Índia.












Paramos no caminho para visitar um colorido templo. Para chegar lá temos de atravessar uma ponte suspensa que balança ao sabor do vento. Dá tonturas e vertigens. À entrada está uma enorme estátua com uma cara estranha.













Chegamos à fronteira de Sikkim, uma província da Índia que outrora foi um reino independente. Há poucos anos foi dada à população a escolha em continuarem como reino independente ou tornarem-se uma província da Índia. Escolheram a Índia mas mantiveram alguma autonomia e leis próprias. Como está muito perto de território chinês (Tibete) e é a única fronteira aberta por terra com este país, tudo e todos são controlados. É necessário uma autorização para entrar. Um visto especial.






O carimbo na fronteira é gratuito mas exige preencher papelada e colar uma foto. Que ninguém tem. Fomos autorizados a ir até à localidade próxima para tirar fotos. Uma aldeia de uma rua, com meia dúzia de lojas. Uma delas tem um grande letreiro que diz “Xerox”. Entramos numa espelunca com um balcão, uma fotocopiadora antiga, um armário de bebidas e uma cama que ocupa quase todo o espaço. O dono tem pele escura, cabelo oxigenado e um grande anel.

Perguntamos se tiram fotos. Responde naquele aceno indiano, um pendular de cabeça que não é nem sim nem não. O famoso NIM dos indianos que serve para tudo. Um por um, sentamos-nos no colchão para tirar uma foto com uma câmara compacta e velha. Tira o cartão de memória e introduz numa minúscula máquina impressora a cores digital. Espanto!









Lá voltamos para a fronteira, cada um com 6 fotos tipo passe embrulhadas num envelope, por 40 Rupias (20 cêntimos). Gastamos 2 horas com as formalidades da fronteira para entrar no Sikkim. Não é por termos de negociar algum presente. É mesmo o ritmo calmo e lento que as coisas acontecem por aqui.

O tempo mudou. O céu já é normalmente cinzento mas agora está a ficar mais escuro. E o nevoeiro cai rapidamente. Faltam uns 30 kms até ao Hotel e o guia decidiu que vamos direitos para lá pois aproxima-se a tempestade. O mosteiro de Pemayangtse fica para amanhã.

Montanha acima, curvas e mais curvas, até já acho que a estrada é melhor. Pequenos troços de terra e lama, um rio que desce encosta abaixo, muitos jipes em alta velocidade fora de mão ou apenas pedregulhos caídos da montanha, solitários no meio do alcatrão. Começo a ficar habituada aos buracos.

Começa a pingar. Bátegas ralas mas grossas. Caem com força e magoam. Pinga cada vez mais, o nevoeiro é denso, ouvem-se trovões lá ao fundo. Instintivamente aceleramos a marcha. Só quero chegar ao Hotel antes da tempestade.

Estamos na recepção do Hotel a beber chá e a fazer tempo até podermos tomar banho. Só ligaram o termostato agora. Ainda não há água quente. O telefone do Hotel não faz chamadas internacionais. Por causa da tempestade também não há Internet. Nem televisão. De vez em quando a luz falha. Temos kit de velas nos quartos. Lá fora a tempestade rebenta.

(continua) ...

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9 comentários:

  1. Fantástico inicio de aventura Paula, fico a aguardar a continuação. Parabéns por seres quem és e que continues a manter essa coragem que te caracteriza.

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  2. atentamente a ler e bolas...continua, desejoso de ver e ler os próximos episódios, beijinho grande querida.

    Fernando FJR

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  3. Grande aventura!! Muito bom.
    Vou aguardar que a tempestade amaine.

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  4. Lindo Paula!!
    Estou a gostar e a "babar" por mais :)
    Esperemos que a net não demore muito a voltar ...

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  5. Excelente voltinha Paula.
    Ler as tuas crónicas é outra forma de viajar.
    Obrigado pela partilha.
    Sem mais

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  6. Olá Paula!
    Gostei o que contas! Aguardo continuação! :)

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  7. E o raio do tempporal nunca mais passa! :)
    Estou a gostar... mais uma vez!
    Bjs!

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  8. Uiiii vou ali me flagelar todo e já volto....pode ser que numa próxima te possa acompanhar...continua que a malta é só babar....hasta.

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  9. Fantástico!! Só consigo escrever isto...Parabéns pelas palavras e pela viagem!

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