WELCOME TO IRAN

É como começam todas as conversas. A seguir perguntam de onde sou. Portugal, respondo. Com um sorriso aberto declamam uma lista de nomes de treinadores e jogadores de futebol. Portugal “good country” exclamam. Olham-me com curiosidade e perguntam pelos meus amigos. Quando percebem que estou sozinha ficam admirados. Falam entre eles e acenam para mim com ar de respeito. Welcome to Iran.

Outubro 2015


Na fronteira entre a Turquia e o Irão não há terra de ninguém. Dois portões de grades correm juntos. Abre o da Turquia e espera-se que abra o do Irão. A conta-gotas, passam meia dúzia de carros de cada vez, controlados por soldados.

Welcome to Iran, diz o polícia que faz o controlo do passaporte. Carimba o visto de turista, depois segue-se a alfândega, coisa que demora mais tempo. O Irão é um dos países que exige Carnet de Passage en Douane, um livrinho castanho que todos transportam e fazem fila para o carimbo de entrada. O guichet dos camiões está a abarrotar. Pudera, fiz 30 km em contramão para passar pelos camiões de carga que esperam entrar no país. A minha primeira surpresa, eu que pensava que os efeitos das sanções internacionais impediam o comércio. Do lado do Irão, outra fila de camiões para sair. 


Assim que atravessei o portão do Irão tive de tapar o cabelo com um lenço, lenço que fui obrigada a usar durante todos os dias. As mulheres não devem mostrar o cabelo nem outras partes do corpo à excepção da cara. A lei da Sharia (aplicada no Irão) diz que as mulheres devem usar “Hijab” (lenço que tapa a cabeça e ombros) como sinal de modéstia e recato. Também não é permitido usar ornamentos em público. É considerado pornográfico e insultuoso mostrar os braços ou pernas. Nunca vi ninguém de calções ou manga curta. Nem os homens.

Bazargan é a primeira cidade que se atravessa por uma avenida larga cheia de lojas. O trânsito é caótico. Todos têm prioridade, andam em sentido contrário, nos cruzamentos é um salve-se quem puder. As motorizadas furam por todo o lado e quando o trânsito está mesmo parado circulam pelos passeios. Os peões circulam por onde podem. Um caos. Até agora, é o único país onde vi caberem quatro carros em duas faixas. Tão perigoso como a Índia.

Ainda em fase de adaptação ao trânsito, rumei até Urmia, cidade junto ao grande lago salgado, onde vive o Hossein, um motociclista iraniano que tem uma Gest House e ajuda os motociclistas estrangeiros. Acompanhou-me a trocar dinheiro, a comprar um cartão de telemóvel e explicou-me os hábitos do Irão e o que deveria ter em atenção. Trago a recordação de uma família gentil e hospitaleira em cuja casa não precisei de usar a cabeça coberta e onde o pai me disse “In my house you are free”.



Vou-me começando a habituar que qualquer cidade do Irão tem quase, ou, mais de 1 milhão de habitantes. Entrar numa cidade demora mais de 1 hora de trânsito parado e ruas sem identificação. Aprendi que não se deve sair das avenidas principais pois as ruas secundárias levam-nos a um emaranhado de ruelas e becos, sem organização, sem gente, apenas muros altos e portas de ferro, típico da cultura árabe, em que as casas são orientadas em volta de um pátio central. Não há janelas para a rua.



Estou na região do Curdistão iraniano, uma zona de planícies enormes, de terrenos arados, sempre com as montanhas ao fundo, carecas, sem árvores, apenas com vegetação rasteira e seca. A estrada é quase uma linha recta que corta a terra castanha e vermelha. Os curdos distinguem-se bem dos restantes. Usam calças muito largas, presas na cintura com uma faixa e elástico no tornozelo. Usam um lenço na cabeça com berloques de linha.

As aldeias estão desertas. Casas da cor da terra, quadradas, com telhados planos forrados com material isolante prateado. Armazenam fardos de palha nos telhados. Nos campos veem-se rebanhos de cabras que por vezes invadem a estrada e entopem o trânsito. 












Kermanshah é o próximo destino. Uma cidade que não está na rota do turismo mas que tem de ser ponto de paragem para quem desce por este lado pois é a única que tem hotéis. Não há hotéis de estrada nem residenciais ou pensões nas localidades. Não é fácil pernoitar no Irão pois só as cidades maiores têm hotéis. Obriga a planear muito bem os dias e distâncias.

À entrada da cidade um polícia indicou-me um hotel. Modesto, limpo, com WiFi mas sem garagem. O recepcionista que fala um pouco de inglês abriu a porta do restaurante e mandou-me guardar a moto perto das mesas do pequeno-almoço. Ficou a olhar para ela durante algum tempo. A moto até que parecia uma obra de arte.




Depois de jantar ouvem-se cânticos e rufar de tambores. Há uma espécie de procissão na rua. Duas filas de homens, vestidos de negro, desfilam lado a lado ao som da música e fustigam-se nas costas com correntes, ao ritmo dos tambores. É a celebração do aniversário da morte de Hussein ibn Ali (neto do profeta Muhammad) morto na batalha de Karbala. Para os xiitas é uma época tão importante quanto o Ramadão. Durante 10 dias vestem-se de negro, choram a morte do seu Imam e expressam a sua tristeza nestas manifestações de pesar, fustigando-se para sofrer como sofreu Hussein. Fiquei a perceber porque o país está cheio de bandeiras negras penduradas por todo o lado.



Geralmente o Bazaar é o centro da cidade. Um espaço coberto, um intrincado conjunto de corredores de lojas. Está organizado por profissões. Há um corredor só com ourivesarias, outro de sapatarias, outro de roupa para homem, outro só com lenços, outro de especiarias e mais corredores cheios de artigos todos iguais. O mercado das frutas e legumes está separado. O meu espanto foi encontrar lojas de tecnologias de todas as marcas conhecidas - telemóveis, LCDs, aparelhagens de som, computadores, até mesmo de marcas americanas.




O Bazaar de Kermanshah é muito genuíno. Nota-se que não é frequentado por turistas pois só vendem artigos do quotidiano. Ao passear por entre as lojas senti-me uma extra terrestre. As pessoas olham-me com curiosidade, as mulheres sorriem e as crianças lançam-me uns “Heloo” e dão gargalhadas. Não me sinto constrangida nem ameaçada. Todos são muito simpáticos. Nas pastelarias oferecem-me miniaturas de bolinhos de areia que se desfazem na boca com um estalo deixando um travo a limão. Com gestos peço autorização para lhes tirar fotos. Consentem com a cabeça e fazem pose. Oferecem-me frutos secos e logo após um “Welcome to Iran” perguntam – Where are you from




No dia seguinte cheguei a Isfahan. Avenidas entupidas de trânsito. Demorei quase 2 horas para encontrar o hotel. Valeu-me um automobilista que ao ver-me parada numa rua com ar perdido me levou até ao destino.

Isfahan é uma cidade que foi em tempos remotos uma das maiores do mundo e capital da Pérsia no Séc. XVI. Rica em palácios, mesquitas, minaretes e, principalmente conhecida pela sua enorme praça “Naghsh-e Jahan”. Os iranianos têm muito orgulho na sua Isfahan e dizem que “Esfahān nesf-e-jahān ast" (Isfahan é metade do mundo).

A praça central é monumental. As mesquitas e o palácio estão revestidos de azulejos coloridos, têm grandes abóbodas e o chão coberto de tapetes. A cor predominante é o azul, entendido na cultura islâmica como uma cor de protecção e harmonia (cor do céu e do mar). Muitas mesquitas são conhecidas pelos Ocidentais como “Blue Mosque” mas acabam por ser todas azuis.

Ali Qapu Palace

O nome do palácio, na língua persa significa “Imperial” ou “grande”. Foi construído no séc. XVII por Shah Abbas I, o 5º monarca da dinastia Safávida. Era o local onde recebia altos dignitários e embaixadores estrangeiros.
Tem 6 andares que se sobem por uma estreita escada em espiral. No 6º andar está o “Music Hall”, uma fantástica “sala de música” adornada com nichos redondos para melhorar a acústica. Do terraço tem-se uma vista espetacular para a praça Naghsh-e Jahan.




Mesquita de Sheikh Lotf Allah

Também construída no séc. XVII pelo monarca Shah Abbas I, esta mesquita era privada, de utilização exclusiva da corte real, mais propriamente para as mulheres do Harém do Rei. Existia um túnel entre o palácio e a mesquita para elas passarem sem serem vistas. Talvez por isso, a Mesquita não tem minaretes (para chamar os fiéis a rezar) nem tem configuração de mesquita pública. É considerada uma mesquita pequena, nos termos de mesquitas do Irão, o que para mim é uma surpresa pois achei a mesquita enorme. O trabalho de azulejo e outros pormenores é absolutamente incrível.
Ao contrário de outros países muçulmanos por onde andei, no Irão nunca tive problemas em entrar nas mesquitas. Estão abertas ao público, inclusive às mulheres. Basta pagar o bilhete de entrada.



No meio da praça há uma fonte com repuxos e um jardim bem cuidado. À noite está tudo iluminado, luzes amarelas contra um céu escuro tornam o ambiente especial.

No Irão, o acesso às mesquitas é livre a todos os turistas, inclusive mulheres. Paga-se uma entrada de cerca de 4 euros – o preço é tabelado em todos os monumentos, grandes ou pequenos, mesquitas ou ruínas, tudo tem o mesmo preço. As zonas de oração também são de acesso livre, áreas separadas para homens e mulheres. É obrigatório descalçar os sapatos.






Passeei no “Persian garden”, um jardim enorme cheio de flores de todas as cores e espaços relvados. Os jardins são muito importantes no Irão e todos estão muito bem cuidados. A maioria das cidades tem “persian gardens” pois o Paraíso é formado por jardins. O verde é a cor da Natureza, a cor sagrada do Islão e uma das cores da bandeira do Irão. Em todos os jardins se vêem iranianos a fazer picnics, juntam-se os amigos e as famílias para conversar e estar juntos, especialmente à sexta-feira (dia de descanso e fim de semana para os iranianos). Sentam-se em tapetes, levam comida e a chaleira do chá num pequeno fogão portátil.





Em Isfahan, a 3ª maior cidade do Irão nota-se uma grande influência quer do turismo quer do nível económico dos habitantes. Vêm-se mulheres com o lenço descaído, a tapar apenas metade do cabelo, sem a capa preta e com roupas mais modernas que no interior do país. Alguma coisa está a mudar por aqui.


Rumo a Sul, a paisagem fica cada vez mais desértica. Terra amarela, areia e pedra. Há poucas povoações. As distâncias são gigantescas. Entre qualquer cidade que está na minha lista para visitar são no mínimo 500 km. As estradas principais são todas vias rápidas com duas faixas de cada lado. Não é necessário entrar nas cidades pois há uma estrada circular para evitar o trânsito infernal do centro.





Restam as estações de serviço, geralmente perto das povoações. Cada vez que abasteço os empregados olham-me com surpresa. Quase nem acreditam que sou uma mulher. Ainda espantados dizem-me “welcome to Iran” e correm a ir buscar chá. Ficam a olhar para a moto e querem tirar fotos. A minha moto é quase uma nave espacial.

Bule gigantesco de chá. Para quem quiser servir-se. Há por todo o lado.


No Irão não há motos superiores a 250 cc. Nas cidades só é permitido andar com motos até 125 cc e não é necessária carta de condução. Para se ter uma moto com 250 cc é necessário autorização da polícia e só se pode conduzir fora das cidades. Ninguém usa capacete. As motos levam quantas pessoas couberem. É normal ver 3 e 4 pessoas numa moto, famílias inteiras, pai, mãe e 2 ou 3 filhos.

De vez em quando páro na estrada. Para beber água, descansar e tirar fotos. Percebi depressa que não posso parar à vista dos carros. Começam por perguntar se preciso de ajuda e ficam a ver a moto e tirar fotos. Uma vez juntaram-se quatro carros à minha volta. Tiram fotos uns aos outros ao lado da mota e até a polícia fez o mesmo. Depois querem tirar fotos comigo. Mais tarde descobri que é proibido fotografar mulheres e homens na mesma foto a não ser que sejam familiares. A partir daí recusei ficar nas fotos. Deve ser um troféu ter uma foto de uma moto que não há no Irão e ter uma foto com uma mulher. Aposto que o WatsApp anda cheio de fotos minhas (aqui o facebook está bloqueado. A rede social é o WatsApp). Ainda arranjo problemas. Também comecei a escolher os locais de paragem, atrás de um monte ou pedra ou escondida num cruzamento. 





(Em construção)

Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe comentário