WresteMania – Crónica de uma mãe pasmada

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Eu já tinha reparado que a filhota vê algumas vezes combates de wrestling na SIC Radical. Nunca me preocupei pois quanto mais de proíbe, mais se desperta o desejo de fazer. O que nunca pensei foi que tinha de ir ver um destes espectáculos ao vivo e a cores. Pois é, lá rumei ao Pavilhão Atlântico, no sábado, pois a catraia não se calava e os bilhetes foram oferecidos.

Pasmo 1 – Três quartos da população presente eram crianças e adolescentes. Pai e Filho(a); Pai e um grupo de crianças que os outros pais lhe impingiram para não terem de aturar aquilo; grupos de adolescentes entusiasmados e saltitantes; adultos adeptos e, claro, aqui a je com a filhota.

Pasmo 2 – Aquilo estava à pinha. Respirava-se ansiedade no ar. As camisolas, tamanho de criança já estavam esgotadas. Ainda assim, venha de lá um small senão o pequenote não se cala. Um grupo de garotas atrás de mim sabia os nomes deles todos. Tecia comentários sobre quem iria ganhar, que aquele é boé da grande, o não-sei-quantos é muita fixe e ainda o não-sei-o-nome é boé da giro.

Pasmo 3 – Ao preciso minuto que era suposto começar, a saraivada de assobios era fenomenal. Esta malta não perdoa. É a geração Y no seu melhor!

E lá entraram uns lutadores com capas de circo, roupas fluorescentes que acabaram em calções, com marcas no rabo, tipo ferro de rancho do faroeste. E vai de chapada, murro, rasteiras, sobem às cordas do ringue, atiram-se uns aos outros, pontapé, golpes de acrobacia, caem de costas, o árbrito começa .. One… Two… e o gajo dá um pinote e começa de novo a pancadaria (ao three parece que é vitória).

Os combates começam com Ex campeões de WWE (o designativo da liga da pancadaria), lutadores já de segunda linha que vêem aquecer a malta. Perto de nós está um expert do desporto, não tem mais de 14 anos, que comenta os golpes do ringue.

Combates homem-homem, duos homem/mulher em cada equipa, Triple-Threat de seis lutadores em ringue, aos pares. Nestes combates de multidão, está um de cada vez a pontapear o adversário. Quando se fartam de enfardar, passam o testemunho ao parceiro de equipa que salta entusiasticamente para o centro e ….. revenge no adversário.

Claro está que aquilo é pró menino e prá menina … não podia faltar o combate das Divas na luta pelo título feminino. A (ainda humana) campeã Mickie contra a Ex-campeã Glamazon, como o nome indica uma matrona loiraça, pesada e furiosa. Mesmo ao estalo e ao puxão de cabelos as moçoilas conseguiam manter uma (relativa) sensualidade, mais que não fosse à custa do bocado de fio dental que teimava em espreitar da licra colada e fluorescente.

Também não faltou a provocação ao público, quando entrou OOOooooo Jay Beee Leeee … um cowboy urbano, América até à medula, que se pôs a insultar o público com comentários sobre Portugal e uma tentativa frustrada de cantar God Bless América. O tipo conseguiu. Conseguiu irritar o público de tal forma que a barulheira, assobios, gritos e vaias eram tantas e tão alto que mesmo com o microfone, não se ouviu patavina do que ele cantou. Fiquei pasmada!

Bom, o auge do espectáculo foi mesmo o último combate. Quatro lutadores da moda. Um monstro troglodita tatuado que dá pelo nome de Umaga, uma estátua grega bem trabalhada Campeão da WWE – Ra - ndy Or - tonnnn, um loiraço grande e musculado Ccchrissss Je – ri - choooo e o grande, genial, cabelo comprido, barba por fazer, gigante com eternidade de ginásio, Triiii - pleee EIDGGG (H), o ídolo da minha filhota (a miúda tem bom gosto, tem!)

Quatro mastodontes em palco … Oopsss, no ringue. Quatro fúrias em golpes fulminantes, posições acrobáticas, a aplicar golpes com nomes como "Spinebuster", “Pedigree”, "Codebreaker”, "Samoan Spike", "Knee Smash" ou o “mortal RKO”. Sim, porque estas coisas têm uma linguagem própria que descobri depois.


Mas desculpem-me os fãs do wrestling, com muito respeito pela modalidade e pelas preferências de cada um, mas o espectáculo … o espectáculo …. O espectáculo é mesmo o PÚBLICO.

Pasmo dos pasmos – O público! O público que reage a tudo. O público sabe bem quem são os maus e os bons da fita. O público que ovaciona os bons e vaia os maus. É ver os duelos de socos – o bom bate no mau e YEEEE, o mau bate no bom e UUHHHH. Depois até se pode fechar os olhos ….. YEEEE …. UUHHHH …. YEEEE … UUHHHH …. YEEEE … UUHHHH .. tá visto, soco para lá, soco para cá, num vai e vem de bordoada.

O público que não deixa o coitadinho cantar o god bless américa e quando o gajinho leva na corneta canta o hino nacional a todo o vapor. Nem no Europeu de futebol o hino foi cantado com tanta alma.

O público que vibra com os golpes, que sofre com o miserável que rasteja teatralmente e tenta esticar a mão para passar o testemunho ao comparsa de cacetada depois de arrochar como um rei. O público que pula ao ritmo dos saltos acrobáticos, que ri até às lágrimas com os boquiabertos derrotados (os maus) e que aplaude até à exaustão os bons que perdem.

O público que ferve de despeito com aquele que dá uma mocada à traição, não era a vez dele, está a desvirtuar o combate. O público que ri até doer quando o mau leva um piparote e voa até fora do ringue. O público que sofre com o lutador que ofega dramaticamente depois de levar um belo dum murro ou se entusiasma com o artista que faz uma expressão teatral de regozijo quando prega com o adversário de costas no chão. O público faz o espectáculo!

Mas afinal, este público é a geração do amanhã.

E agora? Será que este espectáculo possa ser classificado como um show de violência? Não sei. Sinceramente não sei. Só sei que fiquei pasmada. Não vi sangue a escorrer, não se partiram braços nem pernas, os lutadores saíram todos pelo seu pé e percebi que aquela pancadaria toda tinha as suas regras. Será uma versão século XXI do boxe? Com um bocadinho de teatro à mistura? Ainda não consegui digerir e acabar com uma opinião sobre eventuais benefícios ou malefícios do wrestling para os jovens, que eram a grande massa de espectadores.

Ou seja, acabei por me divertir.



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