Turquia (2014)

TURQUIA



27 de Abril a 12 de Maio 2014

Parte I
Apenas duas semanas de férias e um destino a 5.000 km de distância. Rolar até lá demora 6 dias para cada lado e queimo as férias. Solução? Apanhar um avião e alugar uma moto.

A vida é feita de escolhas e as viagens também. Num país 8 vezes maior que Portugal há que optar por uma região. Escolhi a costa mediterrânica do Sul e a Anatólia Central, numa rota com cheiro a Otomano que consigo fazer em duas semanas. 

Além disso, o aluguer de motos em Istambul é pornográfico. Fica mais barato levar a minha moto até lá. Mas como sempre, fora dos circuitos “famosos” as coisas são diferentes. Em Antalya descobri várias empresas de aluguer de motos a preços razoáveis. Escolhi uma sem razão nenhuma. Apenas porque a página de Internet deles estava bem construída, tinha comentários de clientes e porque tive uma daquelas coisas a que chamamos “feeling”. Aluguei uma Yamaha 660R, a bom preço e que me permite andar em qualquer tipo de estrada.



Aterro em Antalya já perto da meia-noite. Foi o voo mais barato que havia. Mr Guven está à minha espera. Faz parte do pacote de serviços do aluguer da moto o transfer do aeroporto para o Hotel. Conheceu-me por ter o capacete no saco pendurado ao ombro.

O caminho para o Hotel faz-se por avenidas largas, bem iluminadas, rotundas e semáforos a funcionar. Uma cidade cosmopolita moderna. Sinto-me um bocado ignorante. Estava a pensar encontrar um ambiente mais parecido com o caos. Mr. Guven, num inglês razoável, vai explicando a história dos locais onde passamos. Quando chegamos ao Hotel já tinha perdido a cerimónia e bombardeia-me de perguntas sobre os meus planos.
Mostro-lhe o mapa do percurso que quero fazer. Ficamos à conversa até muito tarde. Faz questão de me explicar como são os Turcos. Diz-me que nos locais turísticos ninguém me irá incomodar. Mas mais para o interior, onde não estão habituados a turistas, de certeza que me vão bombardear com perguntas, com a agravante de ser muito raro ver uma mulher de moto e sozinha. Avisa-me para ter cuidado, não dar conversa. Mas diz-me que não tenha medo. A Turquia é um país muito seguro. 

PS: Ele só se esqueceu de mencionar uma palavra: São uns chatos, não param de fazer perguntas. No entanto desistem rapidamente ao primeiro franzir de sobrolho.

No meu plano de viagem está previsto passar um dia em Antalya. Para me ambientar e preparar a partida. Combino ir buscar a moto a seguir ao almoço e tratar das papeladas.

Aproveito a manhã para visitar a cidade. Antalya é um destino turístico conhecido. Uma cidade virada para o Mediterrâneo, um pequeno centro histórico bem conservado com forte presença romana. Pedaços de ruínas espalham-se pela cidade e arredores. Entra-se na cidade antiga pela porta de Adriano, um arco construído em honra do imperador romano que visitou a cidade em 130 D.C. Como qualquer país árabe, o comércio ocupa as ruas, lojas para turistas com tapetes, cerâmicas coloridas, bugigangas, artigos (identificados) como falsificação, especiarias artisticamente dispostas em pirâmides alinhadas por cores e muitos, muitos restaurantes. Cheira a Kebabs.












Os Turcos são negociadores agressivos. As tácticas de Marrocos aqui não funcionam. O método é mais psicológico. Começam por nos chamar com um sorriso. Enrolam-nos com elogios e piropos, fazem um ar muito interessado no nosso país, oferecem chá e turkish delights e se não tivermos a vacina anti-compras saímos da loja cheias de bugigangas e sem dinheiro. 

A marina está cheia de barcos de piratas que fazem cruzeiros pela costa. Todos em madeira com estátuas de piratas de filmes, sereias e monstros marinhos. Vendedores de cruzeiros chamam os turistas. Centenas de turistas de chinelos e pele vermelha que invadem as lojas. Japoneses, alemães e russos.






Numa das ruas empedradas do centro antigo está um engraxador de sapatos. Tem uma pequena banca ornamentada e colorida. Tiro uma foto sem ele perceber mas logo a seguir ele levanta a cabeça e instantaneamente chama-me a apontar para uma caixa.  Mais perto, gesticula. Assim que me aproximei aponta para os meus pés. Rapidamente começa a passar cera num dos sapatos. Pede-me 10 Liras pela engraxadela. Refilo. Ralho com ele em português. Só lhe dou 5 Liras e porque lhe tirei uma foto (é como se fosse o pagamento pela foto). Fui mesmo enganada com o truque dos turistas. Afasto-me aborrecida. Serve de alerta para os restantes dias. É assim em todo o mundo. Turista é para enganar e sacar moedas.



Quando fui buscar a moto tive outro daqueles “feelings”. Esta matrícula só pode prometer boas vibrações. Não percebo nada de numerologia mas esta combinação agrada-me. Vou fazer uma boa viagem.


Sair de Antalya foi um pesadelo. Segundo as indicações, basta seguir pela avenida abaixo e logo ali encontro a estrada junto ao mar. Parece-me que os Turcos são parecidos com os alentejanos. É já ali e demorei 2 horas a sair da cidade. Sim, era fácil, a avenida era larga, mas tem 20 km e está entupida de trânsito e semáforos. Começo a pensar que aqui é tudo grande e longe. Só cerca de 50 km depois de sair da cidade é que me senti de férias. Finalmente uma estrada sem trânsito, paisagem aberta. 

A condução dos turcos é bastante agressiva. Um bocado caótica para os nossos hábitos de Ocidental bem comportado. Existem regras de trânsito que eles cumprem. Mas só param na linha limite do cruzamento. Até me habituar a isto apanhei uns valentes sustos. Fartei-me de buzinar. Umas vezes com medo outras de raiva por causa das razias que me faziam ao ultrapassar. Os camiões são os reis da estrada. Não, não são velhos e ferrugentos. São máquinas recentes e modernas, silenciosas e velozes, ultrapassam-se uns aos outros, enchem a estrada. O mais prudente é sair do caminho deles. Ir com calma.






A 1ª etapa é curta. 200 Km até Kas, uma estrada sempre junto à costa, ora sobe os montes, ora segue rente ao mar. Paro numa pequena cidade onde viveu São Nicolau, o bispo de Demre, cujo sarcófago está numa igreja construída em sua honra. Segundo reza a lenda, S. Nicolau foi famoso pelos seus milagres e generosidade. Os seus restos mortais foram levados por mercadores para Itália e a sua santidade deu origem a que se tornasse padroeiro da Grécia e da Rússia. O culto do padroeiro S. Nicolau deu origem à personagem do Pai Natal que conhecemos hoje. No centro da cidade há uma estátua com uma lápide explicativa.




Muito perto de Demre encontram-se as Myra Tombs, uma intrincada rede de túmulos antigos escavados na colina datados do Séc. IV A.C. Mais tarde os romanos construíram ali uma acrópole da qual ainda está bem preservado o teatro. A rua de acesso às ruínas está cheia de lojas de recordações religiosas de S. Nicolau e de pedras sagradas das ruínas. Paga-se 10 Liras para visitar. Deixo a moto junto a uma banca de sumo de laranja. O moço diz que guarda, não há problema. Diz que eu devo ser muito forte para andar com uma moto tão grande. Arregala os olhos a olhar para ela.







Cheguei a Kas ao fim da tarde. A estrada desce o monte com uma vista soberba. Pequenas ilhas perto da costa, um porto cheio de barcos. Uma vila piscatória, amorosa. A esplanada junto ao mar está cheia de estrangeiros. Só ouço falar inglês. Peço um chá e espero pelo casal de ingleses que gentilmente me convidou a pernoitar em sua casa. O David e a Juliet estão reformados e contam-me que andaram pelo Sul de Portugal e Espanha à procura de uma casa para comprar. Os preços eram tão caros que acabaram aqui. Adoram viver cá. A vida é muito mais barata e as pessoas muito hospitaleiras. Nos arredores há milhares de ingleses que adotaram a Turquia. Foi a 1ª surpresa do dia. No rumo da conversa comentaram que a ilha, mesmo aqui em frente já é da Grécia. Pode-se ir a nado. Não me admira que os turcos tenham comichão por ter os gregos ao pé da porta. Guerras antigas.






Quando ando a viajar gosto de sair de madrugada. Ainda não há trânsito, a luz matinal é fantástica. A estrada que vai de Kas até Kalkan corre sempre junto ao mar. Larga, bem sinalizada, curvas deliciosas e ventosa. Espectacular. Apetece ir e vir várias vezes. O mar é de um azul esverdeado, águas calmas, horizonte largo. Chamam a esta costa de Riviera Turca. 

O David acompanha-me até Kalkan. Tem uma moto igualzinha à que aluguei. Ele conhece bem a zona e de vez em quando desaparece para surgir mais à frente no cimo de uma curva de máquina fotográfica na mão. Fez umas fotos fantásticas. 

A maior dificuldade de quem viaja sozinha é aparecer nas fotos. Muitas vezes me perguntam porque tiro tantas fotos à minha moto … pois, porque não há ninguém por perto para tirar a mim.

 Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird

Photo by David Bird



Em Kalkan corto para o interior rumo a Pamukkale. Começa a chover, um dilúvio que me acompanhou nos 300 km até ao famoso “castelo de algodão”. Tinha planeado visitar o complexo durante a tarde. Mas não para de chover. Alteração de planos. Acabo a tarde toda na conversa com o simpático dono do Hotel que se ofereceu para me levar lá acima amanhã.
Amanheceu com sol. À pendura numa scooter eléctrica que já teve melhores dias, sem capacete, o dono do Hotel levou-me até ao portão Sul de Hierapolis, a 6 km da vila. Demorei mais de 2h a visitar as imponentes ruínas e outras tantas a passear pelos terraços e piscinas de água morna. É obrigatório andar descalço pelas piscinas. O chão é mole e branco. A água corre morna.

Pamukkale, classificada como património da UNESCO, é um complexo formado por nascentes termais de água quente e origem calcária que ao longo de séculos formaram piscinas e terraços na encosta. Dizem que as suas propriedades são medicinais e curam várias doenças. No topo da colina estão as ruínas de uma cidade – Hierapolis – que incluem uma piscina termal conhecida por Cleopatra’s Pool, um monumento construído no local onde se acredita que o apóstolo Filipe foi cruxificado, um teatro romano entre outras ruínas. 















Quando acabei a descida já passava da hora de almoço. Devorei uma sandes rápida, vesti o equipamento ainda ensopado do dia anterior e voltei à estrada. No plano inicial estava previsto chegar hoje à Capadócia. Já não é possível. Ainda bem que não reservei nenhum hotel. Fico livre de parar onde quiser.

A meio da tarde desata a chover de novo. Bátegas fortes, granizo e vento. A estrada está ensopada, correntes de água que empurradas pelo vento formam ondas. Fez-me lembrar as ondas de areia que serpenteavam na estrada quando andei pelo deserto no Sahara Ocidental. Assustador. Só que aqui são de água e juntam-se às ondas que respingam dos rodados dos camiões. Sinto-me molhada, gelada e infeliz. 

São só 4:30h da tarde. Estou exausta e farta de chuva e vento. Decido parar em Egirdir, uma vila na margem de um lago fantástico, tapado por nuvens negras. Estou tão desesperada que paro no 1º hotel que vejo. Tem 4 estrelas. Que se lixe. Pergunto o preço. 23 Euros. Nem quero acreditar. Vou-me mimar num quarto de hotel espaçoso e quentinho. Penduro o equipamento no aquecedor e vou para o duche a escaldar. Fiz apenas 200 km. Uma viagem ao ritmo da chuva.





Quando saio para jantar a chuva parou. Dou uma volta pela vila e aproveito para comprar presentes. Fora da época turística é sempre mais barato. Tão barato que nem preciso regatear. Encontro um restaurante cheio de gente. Só pode ser bom com tanta clientela. Não percebo nada do menu. Só me resta apontar para uma foto com uma pitta de bom aspecto. Os empregados não falam inglês. Bem tentam meter conversa mas é difícil. A única coisa que sabem dizer é “where r you frome?” Uma resposta é inútil. Encolho os ombros. Um velhote lá ao fundo gritou qualquer coisa e os empregados deixam de chatear.





Começa a ser um padrão. Amanhece solarengo. O nascer do sol sob o lago é fantástico. Parto de madrugada a tentar compensar o tempo de perdi ontem com a chuva. Já não penso em planos de viagem. Seja o que for. E vou gozando uma estrada maravilhosa que contorna o lago e revela uma paisagem grandiosa, a água reflecte as montanhas ao fundo. Uns km à frente outro lago – Beysehir. Estou na região dos lagos, área muito fértil, campos cultivados, margens de caniçais, aldeias e tractores, verde a perder de vista. Parecida com os lagos suíços ou franceses com a única diferença que em vez de igrejas há mesquitas e a sinalização está escrita com caracteres estranhos.

Ao atravessar uma pequena vila senti o cheiro a pão e bolos. De repente percebi que tinha fome. As padarias na Turquia são obras de arte. Vários tipos de pão, delícias de forno sem cremes artificiais, montras irresistíveis. Uma tentação que nos arregala o olho, entope o olfacto, nos envolve nas recordações do pão quente da avó. Não resisti. Três bolos e pastéis folhados, um chá por 60 cêntimos. Adoro estas Pastanesi. Fiquei com farnel para o resto do dia.









Vou na expectativa de visitar Konya e o famoso museu de Mevlana. No cimo do monte, junto aos vulcões extintos avista-se a cidade que se espalha no horizonte. Gigantesca. Vou gastar o resto do dia perdida numa cidade de 1 milhão de habitantes. Desisto, sou um pouco alérgica a grandes cidades. Gosto mais de espaços abertos, com pouca gente. Sigo viagem. 

Até à Capadócia, a estrada é uma linha recta de 150 km. Chamam a esta região o celeiro da Turquia. Uma planície de campos de trigo, batida pelo vento, uma via rápida interminável. Hoje ainda não choveu mas as rajadas de vento quase me levam pelo ar. Uma hora depois estou cansada de levar tareia e conduzir a moto de lado. Procuro uma estação de serviço que tenha restaurante. Preciso de um chá. Mas esta zona é quase deserta. Só bombas de gasolina e nada de serviços. 




Esfomeada parei numa estação que tinha uma mesa de madeira e bancos corridos frente ao escritório do gasolineiro. Tirei os bolinhos da mala e a garrafa de água que me acompanha sempre. Sentei-me no meu picnic com a companhia de 2 galinhas que andavam por ali. O gasolineiro saiu e percebeu que não queria abastecer. Entrou e saiu de novo com uma caneca de chá quentinha. Pousou na mesa sem uma palavra e foi embora. Deixou-me sozinha no meu banquete. Quando quis pagar recusou e fez-me um sinal de boa viagem. Insólito. 



Na Turquia é tudo grande. Os homens são altos e fortes, as cidades são enormes, as distâncias que ligam dois pontos de interesse são gigantescas. Entre Pamukkale e a Capadócia são 600 km, mais do que ir do Porto até Faro.

Ao final do dia chego a Goreme, bem no centro da Capadócia. No posto de turismo uma senhora mal-encarada e desinteressada anunciou que não havia alojamentos. Tudo esgotado. Não pode ser, pensei. Tenho uma hora até cair a noite. Fui procurar um hotel que tinha visto num site de viajantes. Também esgotado mas o recepcionista diz que conhece uma residencial que tem quartos. E que até pertence à mãe dele. Pronto, senti que o assunto estava resolvido. Bem no centro da vila, uma casa simples, um quarto modesto e limpo, uma senhora amorosa, inclui pequeno-almoço, tudo por 17 euros. A sorte protege os audazes. 

Uma conversa de mímica com a senhora da casa e percebi que os restaurantes do centro são todos caros. Ali para a esquerda é que devia ir. Segui o conselho e aterrei num pequeno restaurante, mãe na cozinha e filho nas mesas. Uma sopa da Anatólia absolutamente deliciosa e um Toutinni. Depois de jantar dei uma volta pela vila. As lojas de recordações ocupam as ruas todas e fecham tarde, o supermercado ainda está aberto. Muitos turistas russos e japoneses. Agências de viagens que anunciam tours pela região e autocarros com destino a Istambul e outros pontos turísticos. Preços acessíveis e uma multidão de jovens de mochila às costas que vai viajar de noite. 













Acordo no meio de uma paisagem lunar. O pequeno-almoço é no terraço onde se avistam estranhas formas pontiagudas que apontam aos balões que sobrevoam a zona. Esta região é caracterizada por formações geológicas moldadas através dos séculos pela erosão do vento e por vales profundos onde ainda correm rios. As rochas vulcânicas macias permitiram que fossem escavadas habitações e abrigos. O resultado é uma paisagem desértica, disforme, quase apocalíptica. 


Dois dias a explorar a zona. Fui a todos os locais que vêm nos roteiros turísticos. Pigeon Valey, Vale de Ihlara, Mosteiro de Selime, Rose Valey, Love Valey e muitos outros que não sei o nome, subi a todos os miradouros e desci à cidade subterrânea de Derinkuyu. Aventurei-me pelos caminhos de terra por entre rochas de formas caprichosas e cavernas desabitadas, deambulei calmamente num planeta diferente.







Pigeon Valey deve o seu nome aos milhares de pombais escavados na rocha macia desde os tempos antigos. Os pombos eram usados pelos Romanos como correio de mensagens entre as regiões e os excrementos de pombos são muito populares nos agricultores como fertilizante. Do alto do Vale avista-se uma paisagem fantástica de formações rochosas pontiagudas conhecidas como chaminés de fada (fairy chimneys).







As cidades subterrâneas serviam de refúgios às populações nas guerras da era Bizantina, das perseguições Romanas aos cristãos, ou, mais recentemente, usadas pelos Gregos da Capadócia para escapar às incursões dos Otomanos. São intrincados labirintos de túneis e cavernas, com vários pisos sob o solo que podiam albergar até 20 mil pessoas. A cidade subterrânea de Derinkuyu tem área de celeiro, estábulo, adega, refeitório, escola e até uma capela no piso mais inferior (cinco pisos abaixo do chão). Em todos os túneis se sente corrente de ar vinda de um complexo sistema de poços de ventilação. Muitas destas cidades estão ligadas umas às outras através de longos túneis. 





Selime Monastery é uma igreja-mosteiro situada a 28 km de Aksaray. Foi também quartel-general da região. Talhado na rocha, a grande altura, é o maior mosteiro da Capadócia, com uma igreja do tamanho de uma catedral onde ainda hoje restam vestígios de frescos de há muitos séculos. Servia também como paragem das grandes caravanas da rota da seda onde os mercadores procuravam refúgio durante a noite. Entra-se por uma rampa e escadas muito íngremes não aconselhável a vertigens. Lá em cima desfruta-se de uma paisagem fabulosa.







O percurso foi aconselhado pela dona do Hotel, numa conversa de mímica (ela não fala inglês) a apontar os locais no mapa. Aconselhou-me os restaurantes mais baratos, os caminhos por onde passear, as lojas a evitar. Estivemos uma tarde inteira à conversa, por entre gestos e risos.

No dia em que parti a moto fazia um barulhinho esquisito. Percebi que, enrolado no guiador, tinha um anel de bordado turco com uma pedra de olho da sorte (chamado de Evil Eye o símbolo do olho é considerado como um amuleto poderoso de protecção contra as forças do mal). 















Cada vez que passo no cruzamento do centro da vila, o rapaz da loja de aluguer de motos grita qualquer coisa para mim. No final da tarde do 2º dia, quando vou fazer as últimas compras percebo um “Can I help you?”. Paro e olho para ele - Yes, you can!

E explico que preciso de por óleo na corrente da moto mas não tenho descanso central e sozinha não o consigo fazer. Olhar espantado e uns minutos calado. Depois abre um sorriso. Chama o mecânico da oficina. Lubrificam a corrente, verificam a pressão dos pneus e o nível de óleo. Vai buscar chá e bombardeia-me de perguntas de onde sou e o que ando a fazer e para onde vou. Não percebe o que é Portugal mas falo no Ronaldo e os olhos brilham.  Haaaa ....  Portuguisi (descubro que Portugal é um país que se chama Portuguisi porque o Ronaldo é Portuguisi). Agora entendo porque quando dizia que sou de Portugal ninguém me entendia. Eu não ligo nada a futebol mas que facilita a vida de quem viaja, facilita! 




Quando planeei a viagem encontrei várias referências das Munzur Mountains, uma região inóspita no centro da Anatólia onde passa o rio Eufrates, na fronteira com o berço das principais civilizações da Mesopotâmia. Apeteceu-me passar por lá. São só 500 km. 


Uma parte do caminho é por uma estrada que pertence à antiga rota da seda, rota de comércio entre o Oriente e o Ocidente por onde passavam caravanas carregadas de bens. Ainda existem os “Kervansarais”, albergues fortificados à beira da estrada que serviam de pouso e abrigo aos comerciantes.
Como ponto turístico, à volta deste caravanserai cresceu uma vila com várias lojas e restaurantes no meio do nada. A entrada custa 15 liras. Não me apeteceu. Fiquei pelo exterior.




Continuo na grande planície da Anatólia central por uma via rápida que atravessa uma terra seca e quase deserta. Tufos de vegetação intervalam com montes de terra branca com recortes estranhos. Não há casas, vilas ou gente, apenas a via rápida, camiões e postos de abastecimento. Depois de dois dias de bom tempo, hoje, o céu está carregado. A meio da manhã levanta-se um vendaval terrível. A viagem transforma-se num tormento. Tenho de parar numa estação de serviço.
Há um restaurante onde ninguém fala inglês. Em gestos explico que tenho fome. Fazem-me sinal para sentar e servem-me uma deliciosa sopa, uma salada e carne guisada. Estou a ver um programa de culinária na TV à espera que o vento acalme. Eu e uns quantos camionistas que também fizeram uma paragem de segurança. Um par de horas depois vejo os camionistas a sair. O vendaval acalmou. Sigo viagem. À medida que me aproximo das montanhas os campos ficam mais verdes, a estrada fica mais estreita, há rebanhos de ovelhas e vacas e cães pastores que ladram e correm atrás da mota.




Chove outra vez e o vento continua a fustigar. À entrada de uma vila páro numa estação de serviço. Estou ensopada e gelada. Não falam inglês. O moço chama-me atrás do balcão. Tem o Google translator aberto e conversamos pelo teclado Turco-Inglês-Turco. Daqui para a frente é estrada rural, muitas curvas, sobe a montanha até ao desfiladeiro do rio Eufrates. É quase noite. Penso que já é tarde para tanta aventura. Por sorte há um hotel na vila, junto à mesquita, onde ficam os peregrinos.

O recepcionista não fala inglês e o hotel não tem restaurante. O mais próximo é no centro da vila a 2 km. Tem Internet wireless e ligo o Google translator no meu telemóvel. Consigo explicar ao velhote que estou exausta, esfomeada. Chove torrencialmente. Vai pedir a um restaurante que traga um kebab ao hotel. Passado pouco tempo estaciona um Renault comprido, esguio e reluzente, sai um rapaz novo, bem vestido, com uma bandeja onde trás um menu completo, prato, talheres, copo e iogurte. O recepcionista improvisa uma mesa na recepção. Tudo isto por 4 euros. Janto a pensar que esta não é apenas uma viagem, é uma experiência de vida onde reina o imprevisível.

Os altifalantes da mesquita aqui ao lado gritam a chamada para a oração. Adormeço com a cantilena e acordo com a mesma canção.
Amanhece sem sol, sem chuva. Vou andando até que o tempo me permita. Uma estrada estreita de montanha, subidas íngremes e retorcidas, paisagem verde fenomenal. Lá em baixo, num desfiladeiro corre o Eufrates. A estrada corre junto ao leito do rio, passa por túneis escavados na montanha. Lá longe uma ponte de ferro atravessa o rio. Estou sentada numa rocha à beira da estrada a respirar natureza e a pensar se faço os 70 Km de uma estrada que me falaram que se chama "Estrada das Pedras", um caminho de terra que corre sempre junto ao rio. Há uma placa que dia que a estrada é perigosa. 

O céu escurece rapidamente. De repente ouve-se o estrondo de trovoada. Enquanto visto o fato de chuva aproxima-se uma coluna militar. O jipe da frente para e perguntam-me que estou ali a fazer. Um dos oficiais fala um pouco de inglês. Diz que há uma vila uns km à frente e tem um Hotel. Entro na vila escoltada por vários camiões de soldados (mais tarde explicaram-me que nas zonas mais remotas não há polícia, são as forças militares que mantem a ordem).






No Hotel ninguém fala inglês. Aponto para o restaurante. Fazem-me sinal para sentar. A meio do almoço aparece uma rapariga e senta-se na mesa. É a professora de inglês da escola. Foram chamá-la para falar com a estrangeira que chegou de mota. Passa a tarde toda comigo. Afinal aquela “pequena” vila tem 10 mil habitantes, é muito conhecida por se organizarem provas internacionais de trekking e por ter uma característica única – todas as portas têm dois batentes, cada um com som diferente, um para homens outro para mulheres. Assim, os donos da casa sabem qual deles deve ir abrir a porta.














Leva-me a visitar a escola secundária, um edifício enorme e moderno. Tem um museu de história natural que faz inveja ao museu de Lisboa. Várias salas com fósseis, animais empalhados, exposições de flora local. São os alunos que mantêm o museu. Todos os anos há incursões pelo país, em locais onde escavam relíquias acompanhados pelos professores. Tudo isto financiado pelo Estado. Fantástico.




Depois de jantar vamos dar uma volta pelos bares. Esta pequena cidade tem muitos jovens e, por isso, bares abertos até tarde. Um deles é numa antiga igreja que foi transformada. O altar é o bar onde se servem as bebidas. Diz-me que é o mais popular. Faz-me lembrar na Irlanda onde estive num bar que era uma antiga igreja inglesa. Esta coisa da religião faz-me confusão.

As empregadas são todas mulheres jovens. Fico curiosa e pergunto sobre a vida das mulheres num país muçulmano. Explica-me que ainda é complicado. Nas grandes cidades e vilas as mulheres desempenham um papel mais activo, têm mais liberdade. Já não usam o lenço a tapar o cabelo. O problema são as regiões mais remotas, pequenas aldeias onde ainda reinam os tempos antigos. 

Chamam coincidências a factos da vida. Se não tivesse feito uma pausa e se tivesse seguido pela estrada das pedras tinha sido apanhada pela chuva no meio da montanha, numa estrada de terra encalhada entre a escarpa e a falésia. Felizmente a beleza da paisagem “obrigou-me” a parar, a coluna militar não deu espaço para pensar em odisseias de off road. Por vezes o entusiasmo retira-nos o bom senso mas o destino encarrega-se de nos guiar. O que não é para ser, não tem de ser.


Acordo cedo. O céu está azul lindo. Hoje posso recuperar os km que não fiz ontem. E ainda bem que não fiz. A experiência foi fantástica.

Movida pela curiosidade, ainda entrei no túnel que dá acesso à famosa estrada. Fiz apenas 2 km e voltei para trás. Foi suficiente para perceber que a estrada seria perigosa para alguém como eu sem experiência de todo o terreno. Mas a paisagem é fabulosa. 



Para sair do emaranhado de curvas e montes levei umas horas. A paisagem é espectacular, do cimo das montanhas avista-se a garganta e o rio lá em baixo que corre pachorrento. Tudo em harmonia.

Na primeira vila paro para petiscar. Senti o cheiro de uma pastelaria a chamar por mim. Duas Liras (0,60€) por um chá e bolos. Já tenho farnel outra vez.








O destino hoje é o monte Nemrut, para Sul. Mais uma recta sem fim até Malatya. Tinha visto no Google maps que há ligação para o Monte Nemrut. À entrada da cidade páro numa bomba de gasolina. Abasteço e oferecem-me chá. Claro. Pergunto o caminho. Ninguém sabe e ninguém fala inglês. Um dos empregados faz uns telefonemas. Passa-me o telemóvel onde alguém do outro lado fala inglês. Explico o que quero. Responde-me um homem, em bom inglês que organiza excursões a Nemrut e que posso ir ter com ele ao centro que trata de tudo. Só me faltava mais esta. Digo que sim e durante a conversa percebo que há estrada e que é boa. Sim, vou ter ao centro. Arranquei a rir-me. Bem podia esperar por mim. 





À saída da cidade há sinalização para Nemrut. Vou seguindo as placas, subindo mais uma montanha até que a estrada fica a pique, um horror de inclinação. Uma espécie de Stelvio cá do sítio. De repente, no alto, a estrada acaba. Só um pequeno hotel e uma carrinha que tinha visto vir sempre à minha frente. Mais nada. Sai o dono, cumprimenta e pergunta se tenho reserva. Não estou a entender nada disto. Afinal onde são as estátuas?





Acabo a perceber que não há ligação para o lado Sul do monte. A estrada acaba ali. As estátuas são 10 km mais acima, por uma pista. Estou perdida. O dono tenta vender-me a estadia no Hotel. O preço é exorbitante. Invento uma história que tenho uns amigos à espera do outro lado, a Sul. Diz-me que só voltando a Malatya e dar a volta. São uns 200 km. Devo ter feito uma cara tão desolada e infeliz que acho que teve pena de mim. Diz-me que há uma alternativa - fazer uma pista de 4 km, a partir da última aldeia lá em baixo e depois vou ter alcatrão de novo. Contorno o monte, por estradas rurais, 40 km e estou do outro lado.

E agora? Tenho medo de pistas e já me imagino perdida no meio dos montes. Cansada, suada, depois quase 300 km, às 4h da tarde é a última coisa que me apetece é fazer off road.

Olhei para a carrinha e tive uma ideia. Perguntei-lhe se o motorista podia ir comigo até ao próximo alcatrão e se fazia um bom preço. Negociamos. Lá vou eu, devagar numa estrada de terra, com curvas de susto, para cima e para baixo, não se vê ninguém. Só a carrinha no meu retrovisor. Uma das curvas é tão apertada e a descer que gesticulei para o motorista me ajudar a passar a moto à mão. Depois tenho de esperar que a carrinha faça a curva. Que raio de aventura.

Nem tenho vontade de tirar fotos. Só quero sair daqui. Vou a olhar para o conta-km a ver quando acaba este suplício. Passou os 4 km e a pista não acaba. Afinal são quase 10 km de terra e susto. Chegamos ao alcatrão e despeço-me do meu acompanhante. Tenho um mapa desenhado pelo dono do hotel com a sequência de aldeias a fazer para chegar ao cruzamento de Nemrut.

Só quando regressei é que descobri que tinha a camara a filmar o tempo todo. Ao visionar o filme percebi que fiz uma estrada com uma vista fantástica. No filme a pista até nem parece assim tão má. Estava tão nervosa que nem aproveitei o passeio. Só de pensar que no dia anterior andei com ideias mirabolantes de fazer a estrada das pedras .... Só nestas ocasiões é que sinto falta de ter companhia em viagem. Seria mais seguro ter alguém por perto ou ser uma estrela de cinema e andar com uma equipe de produção atrás. A realidade é que ... há limites para a aventura se queremos ter a certeza de voltar a casa.

Chego ao cair da noite já com pingas de chuva a cair. Subo o monte e começam a aparecer pensões com aspecto esquisito. Encontro uma com bom ar. Estaciono. Sai um jovem sorridente a saudar-me. Fala um inglês razoável e anuncia que tem quartos e serve jantar. Um casal ocidental passa por nós. Metem conversa, são alemães e dizem que o local é simpático, é a 2ª vez que aqui ficam. Ficamos à conversa e a beber chá.

O quarto é básico, uma cama e nada mais. O chuveiro é na parede e funciona mal. É o que se arranja. Mas o rapaz é uma simpatia e o jantar com os alemães ajuda a tornar a noite mais confortável. Contam que estão reformados e vivem em Alanya. Andaram por Portugal e Espanha à procura de casa mas era tudo caro (já ouvi esta história). Adoram viver cá (mais tarde contaram-me que há tantos alemães na zona de Alanya que lhe chamam “Little Berlin”)





Esta viagem tem corrido ao sabor do vento e do acaso. O temporal não me larga e condiciona os meus planos. Ainda não consegui cumprir os horários nem as paragens que tinha planeado em cada dia. Tudo me tem acontecido e acabo sempre num sítio diferente do que tinha pensado. Há dois dias que me acontece tudo e cada vez mais insólito. Começo a pensar que esta viagem não é turística mas sim uma experiência de vida.

Acordo com o som da chuva a cair. Bátegas leves que me fazem pensar que tenho de ajustar os planos outra vez. Chego ao restaurante e encontro o simpático casal de alemães. Ela diz em tom de brincadeira – é melhor ires dormir de novo pois assim é desagradável subir ao monte. Não, respondi. Não posso deixar que a chuva me impeça de fazer coisas. Tomo o pequeno-almoço com calma sempre a olhar pela janela. A chuva abranda, pinga leve. Decido arriscar. Visto o fato de chuva e subo os 17 km até ao topo do monte Nemrut. Estrada de paralelo arrumadinho, bom piso, curvas ligeiras, bem diferente da escarpa que subi ontem. Lá em cima o vento sopra tão forte que quase vou ao chão. Uma rampa muito inclinada, onde a muito esforço consigo estacionar a moto contra o vento. Penso que não vai ser fácil tira-la daqui.

Há um pequeno café onde também vendem souvenirs e tapetes e chá e um senhor simpático que me saúda. Faz sinal que guarda o capacete. Há um passadiço com degraus para subir ao topo. Uma série de passadiços fazem a volta ao monte. Sobe-se por um lado, desce-se pelo outro. Estou sozinha, não há turistas. Chuva ligeira. Vento forte. Vou subindo, lentamente, estou a 3.600 metros altitude. Canso-me depressa. O vento não pára. Partes do caminho são carreiros em gravilha e degraus de pedra. Por vezes as botas resvalam. Tento manter-me direita contra o vento. Vou subindo bem devagar. Meia hora de subida e chego ao 1º patamar. As estátuas estão cá. A olhar o horizonte sem fim.

Classificado pela UNESCO, as ruínas do túmulo do rei Antíoco I são constituídas por 2 terraços e um altar. Um templo a céu aberto cheio de estátuas de leões, águias e estátuas gigantescas dos deuses Apolo, Zeus, do meio-deus Hércules, da deusa da fertilidade e outros.






Parou de chover. Tiro umas fotos. Dispo o fato de chuva. Estou a transpirar. Sozinha no topo do mundo, só o vento e eu. Sopra-me nos ouvidos, fala-me uma linguagem que até entendo. Ou então estou a ficar maluca. Começo a falar com ele, respondo-lhe, falo sozinha. Rio-me da minha figura. Entretenho-me a fotografar-me usando o temporizador da máquina. Não acerto com isto, preparo o disparo e a foto apanha-me a meio caminho. Lá consigo umas fotos razoáveis. E rio-me. Ainda bem que estou só. A minha figura iria chocar qualquer turista na área.

Só eu, o vento e este topo do mundo onde sinto uma energia forte, vinda das entranhas da terra que me envolve e abafa. Transpiro. Rio-me. Será demência? Não sei, só sei que me sinto bem. O olhar espalha-se pela paisagem carregada de nuvens. Liberdade, horizonte sem fim. 

Duas semanas por ano são minhas. Sem responsabilidades, sem tarefas, sem horários, sem relógio, com destino mas sem rumo. Eu e um mundo enorme para descobrir. Livre. Feliz. Estou bem!


Contorno o monte, começo a descida para o 2º patamar. Mais estátuas, cabeças que rolaram dos corpos e se espalham na encosta. Resultado de um rei que devia ser tão louco como eu. Mandou construir aquelas formas que vigiam o horizonte, quase que a guardar ou proteger o mundo. O tempo fez rolar as cabeças. Reis, animais, santos. Ícones de uma civilização de outros tempos. Outras crenças. 





É tempo de descer. É mais fácil agora, o passadiço é inteiro, não há carreiros de gravilha. No pequeno café sento-me a descansar. O dono oferece chá. Estou a mentalizar-me para descer o monte, a rampa a pique com este vento. Com gestos, peço ajuda para virar a moto. Um homem que deve ser motorista de uma das carrinhas que entretanto chegou fala um pouco de inglês. Veio ajudar.

Monte abaixo, o vento fica mais suave. Páro no Hotel para ir buscar as malas. Ninguém à vista. Entro na cozinha deserta, passo para a sala comum e está o dono a dormir num sofá de tapetes. Demorei uns 5 min a decidir se o acordo. Abre os olhos, pediu desculpa atrapalhado e vai buscar chá. Sentados no restaurante comunico ao rapaz que vou abastecer no posto de gasolina que tinha visto lá em baixo no dia anterior. Ri-se e diz que aquele posto só tem gasóleo para os tractores. No benzine. A estação mais próxima é a 50 km. Fico assustada. Depósito no fim da reserva.

No problem, disse. Pega no telemóvel e depois de 3 telefonemas manda-me descer até à 2ª aldeia. Vou meter gasolina na mercearia local, uma garrafa plástica de 1,5L. É assim na Turquia. Tudo se resolve. No problem.

Estava eu a pensar que existiam bombas por todo o lado. Mas só nas estradas principais. Nestas estradas rurais, posto de abastecimento só tem gasóleo para tractores e camiões. Já me livrei de mais uma. Sigo caminho. 


O último objectivo da minha viagem é a zona de Sanliurfa, apenas a 200 km daqui. Rumo a Kahta para atestar e almoçar. Mal saio da cidade rebenta o temporal. Granizo, raios e trovões tão fortes que tenho de cruzar a via rápida em contramão para me abrigar numa bomba de gasolina do outro lado. O céu desabou. Pareço um pinto molhado, escorro tanta água quanto a que cai do céu.

Três empregados velhotes convidam-me para entrar no escritório e, claro, oferecem-me chá. Nenhum fala inglês. Gesticulamos mas não nos conseguimos entender. Simpáticos. Cá fico sentada a ver danças turcas na TV à espera que o temporal acabe. Mas não acaba, parece que fica cada vez pior. Decido voltar para trás. Vai ser difícil cumprir o plano hoje.

Entro em Kahta à procura de hotel. Na avenida principal, vou devagar à procura de um letreiro que diga "Otel". Uma carrinha desata a buzinar atrás de mim. Encosto para o deixar passar. Pára ao meu lado e pergunta se preciso de ajuda. É o senhor que me ajudou a virar a moto no cimo de monte Nemrut. Digo-lhe que procuro um hotel. Faz sinal para o seguir. O irmão tem um hotel a 50 metros. Bom aspecto. Não pára de chover. Decido ficar. O preço é bom. A casa de banho tem um chuveiro a sério. E água quente e secador de cabelo. Estava com saudades de um banho quente numa casa de banho em condições.

Obra do acaso ou não há acasos. Tinha de ser. Ao sabor do vento e da chuva as coisas vão acontecendo. Há uma estrelinha que brilha através do temporal e ilumina o meu caminho.

Passo a tarde debaixo de um agradável telheiro a escrever. O dono vem meter conversa. Fala mal inglês. Está com outro homem, emigrante em Itália. Entre bocados de inglês e italiano passamos horas a falar sobre Portugal, Turquia e religião. São muçulmanos moderados. Perguntam sobre a minha religião. Respondo que sou Budista e que não entendo as religiões porque os homens matam em nome dela. Aceita a explicação mas faz questão de me contar toda a história do Islão. Está um calor húmido que faz lembrar o clima da Índia. A conversa acaba porque os homens vão rezar. O altifalante da mesquita começou a cantar.



Consulto a meteorologia. Dão chuva para os próximos dias. Tenho de tomar uma decisão. É uma parvoíce continuar com o itinerário planeado debaixo de chuva. Vou voltar para Antalya mais cedo. Ainda são uns mil km até lá.

De manhã, já pronta para partir, o homem corre para mim. Traz-me um presente que oferece com deferência e deseja que Alá me acompanhe na viagem. Não podia ficar mais surpreendida. Este mundo é uma caixa de surpresas!

200 Km a Sul há uma auto-estrada que vai para Tarsus. O céu está carregado de nuvens cinzentas. Vou seguindo viagem e tentar fazer o máximo de km possível. Antes da auto-estrada páro num café. Começa a pingar água. O dono explica-me que as portagens são todas electrónicas e que para pagar a AE tenho de comprar um cartão de pagamento. Não te preocupes, é fácil, diz ele. Na saída, mesmo antes das portagens tens um posto onde compras o cartão e pagas o percurso que fizeste.

Mais 270 km debaixo de chuva intensa, no meio de filas intermináveis de camiões a respingar água. Estou tão cansada. No posto de controlo da AE tenho de dar o passaporte e carta de condução para emitirem o cartão e pagar. É um guichet e estou de capacete posto tal é a quantidade de água que cai.

Entro em Tarsus à procura de Hotel. Pouca gente na rua por causa da chuva. Caminham abrigados nos toldos das lojas. Páro à porta de uma barbearia e faço sinal a um homem que olha para fora. Deve ser uma coisa nunca vista por aqui pois vêm todos cá fora falar comigo. Indicam-me um Hotel que é barato, mesmo na rua principal, 100 metros aqui à frente. Entro no Hotel e escorro água pelo corredor. O velhote da recepção abre um sorriso e desaparece. Foi buscar uma esfregona para limpar o chão. Só depois fala comigo. Por gestos peço um quarto para dormir e pergunto sobre garagem para a moto. Dez euros pelo quarto e diz que posso por a mota no corredor.

Descarrego a mala e o saco e ajuda-me a entrar com a moto. O guiador não cabe na porta de vidro. Aparece um polícia e o fiscal da EMEL cá do sítio. Dizem para deixar a moto em cima do passeio, junto à estrada. Sem problema, ninguém mexe. Eles andam por ali toda a noite e sabem que a moto é de uma Portuguisi que anda sozinha a viajar. 







Bem cedo, tomo o pequeno-almoço e carrego a moto. Dou por falta dos elásticos para prender o saco. Deve ter sido na confusão de ontem a tentar arrumar a moto debaixo daquele temporal. O velhote da recepção apercebe-se do meu ar desorientado. Por gestos tento explicar que não posso amarrar o saco ao banco. Sorri e faz sinal de espera. Sai rua acima e volta uns minutos depois com dois elásticos fortes e coloridos. Consigo perceber que há uma loja de bicicletas perto. Problema resolvido por 2,5€. Abana a cabeça de contentamento e repete – No problem. 

Sim, na Turquia parece que nunca há problemas. Tudo se resolve. Gosto disto!

Daqui tenho dois caminhos para regressar a Antalya. Pela costa, numa estrada lenta, perigosa e entupida de camiões ou pela via rápida que vai dar a volta por Konya. O velhote aponta para o mapa e faz sinal que pela costa não. Bate com o dedo em cima de Konya. São 100 km a mais mas muitas horas a menos. Sigo o conselho. Lá vou ter de fazer outra vez aquela planície batida pelo vento.






Da parte da tarde começa a chover outra vez. Ainda nem consegui secar o fato da chuva de ontem e já estou encharcada de novo. As botas andam ensopadas há 3 dias. Estou farta de chuva e de vento e de camiões. Conduzo até aguentar. Antes de atravessar as montanhas que me separam de Manavgat entro numa pequena cidade. Deve ser mais fácil arranjar alojamento aqui que num local muito turístico. Ando para baixo e para cima na avenida principal à procura de hotel. Nada. Decido entrar numa loja e perguntar. Indicam-me um na 2ª rua à esquerda. Está lotado mas o recepcionista manda-me para outro no cimo da avenida principal, já no extremo da cidade.

Sou recebida por uma simpática senhora. Não têm garagem mas não há problema de a moto ficar à porta debaixo da câmara de vigilância. Ainda tenho tempo para uma volta na cidade. Não há turistas por aqui. Todos me olham com ar curioso. No restaurante, a meio do jantar, os rapazitos da cozinha vêm-me pedir para tirar uma foto. Muito contentes e orgulhosos fazem pose ao meu lado. Devo ser um extra terrestre por aqui. Uma mulher sem lenço na cabeça, vestida com um blusão enorme e colorido e sozinha a jantar. A pergunta da praxe “where r you frome?” e depois não sabem dizer mais nada em inglês. Deixam-me tirar umas fotos da cozinha. 









Hoje o caminho é curto e vou visitar alguns locais turísticos. Subo as Taurus Mountains sob um céu cinzento. Raios da chuva sempre a ameaçar. A estrada é retorcida e atravessa vários desfiladeiros. Quando passo para o outro lado da montanha as nuvens são brancas, fofas. O Sol brilha. No horizonte reina o azul. Sabe tão bem sentir o calor. Estaciono na berma da estrada. Ao sol. Tiro o casaco e penduro no rail. O fato de chuva também. Tiro as botas. Deito-me no chão, ao sol. Finalmente não cai água. Não sei quanto tempo passou. Só sei que as botas secaram e eu tenho a cara vermelha. Passaram poucos carros.


A pior parte das viagens é perceber que está a acabar e que o tempo passou muito depressa. Parece que ainda ontem cheguei e daqui a 2 dias embarco de volta. Um sentimento de completa satisfação porque cheguei aqui e de completa insatisfação porque quero mais. 







Continuo a descida para a costa. Vou visitar as cascatas que vinham anunciadas nos sites de turismo. Pago para ver umas pequenas quedas de água. Uma entrada ladeada de lojas e restaurantes. Dezenas de turistas russos e chineses. 

Conheço em Portugal umas 3 ou 4 cascatas e quedas de água que nem aparecem anunciadas e são bem mais bonitas que estas. Os Turcos são parecidos com os Ingleses. Qualquer monte de pedras com mais de 100 anos é referência histórica e turística com direito a placa castanha de sinalização. Há tantas espalhadas ao longo das estrada que se fosse parar em todas levava um dia inteiro para fazer uma centena de Km.  É uma pena e frustração Portugal não preservar o património cultural e natural que tem. Ao nível do que melhor se encontra por aí. 


A estrada da costa, entre Manavgat e Antalya é das mais perigosas por onde andei. Uma espécie de N125 com o dobro dos carros e dos semáforos e a condução agressiva dos Turcos. Estou satisfeita por ter vindo pelo interior. Afinal o Sr. do Hotel em Tarsus tinha razão.

Chego finalmente a Antalya um dia mais cedo que o previsto. O voo de regresso é amanhã à noite. Entro na cidade pela praia – Lara Plaji. É Domingo e as famílias vieram passear ao sol. Um areal extenso. No pequeno rio que desagua aqui estão estacionados barcos piratas dos cruzeiros para turistas.






Ao final da tarde vou entregar a moto. Mr Guven está muito contente. Obriga-me a contar as peripécias todas da viagem. Vai acenando com a cabeça, por vezes ri-se. Está muito satisfeito por a moto não precisar de nada. Orgulhoso diz que fez uma revisão muito cuidada antes de eu partir para garantir que não tinha nenhum contratempo. É verdade, esta Yamaha 660 portou-se muito bem. 

Estou satisfeita por ter escolhido esta empresa. Asseguram assistência técnica no país todo, o que me deu muita confiança pensar que em qualquer eventualidade bastava fazer um telefonema. E mais, Mr Guven emprestou-me um telemóvel turco. Durante a viagem carreguei um total de 9 euros e telefonei todos os dias (grande poupança de roaming).


Último dia de férias. Dou-me ao luxo de dormir até às 9 horas da manhã. Pela primeira vez em duas semanas não estou na estrada de madrugada. O Hotel é nos arredores da cidade. Há um autocarro para o centro, o bilhete custa 60 cêntimos e o condutor avisa-me onde devo sair. Vou fazer as últimas compras.











Está um dia de sol lindo. Decido ir fazer um cruzeiro num daqueles barcos piratas em madeira. Na marina há dezenas de angariadores para os passeios de barco. Vendem cruzeiros para qualquer um, o que estiver de partida mais cedo. Começo por dizer que não a todos. Ando por ali a tentar ouvir as conversas com os turistas. Consigo perceber os preços que fazem. Sento-me numa esplanada e peço um café turco. Estou fã deste café. É espesso, cremoso, forte.




O empregado vem meter conversa. Fala um pouco de inglês. Pergunta-me se não vou fazer um cruzeiro. Respondo que gostava mas é muito caro. Abana a cabeça a dizer que não. Chama o homem que está junto ao barco mesmo aqui à frente. Falam rapidamente e o homem apresenta-se como dono do barco. Digo-lhe que acho muito caro e no fim das férias já não tenho dinheiro. Faz um preço, mantenho o Não. Pergunta quanto posso dar. Contraponho um valor. Negociamos e acabo com um preço de menos de metade do que ouvi os outros turistas a pagar. Fixe. Vou passear.

No cruzeiro vou EU e um grupo de turistas árabes. Olham-me com curiosidade. As mulheres sentam-se todas juntas a conversar e a rir. Os Homens muito animados dançam ao som da música. Mas só os homens dançam. O capitão do barco é grego. Parece um velho lobo-do-mar dos livros de histórias. Até fuma cachimbo.

Mais uma vez me sinto um extra terrestre. Os turistas árabes não descolam os olhos de mim. As mulheres vêm discretamente sentar-se ao meu lado para tirar fotos. Voltam para o meio do grupo muito satisfeitas. Quando chegamos à grande cascata peço ao capitão para me tirar fotos. Estou contente e faço poses divertidas. Algumas das jovens perdem a vergonha e juntam-se a mim. De repente estão todos a tirar fotos de braços abertos. Rimo-nos todos.

O barco navega junto à costa. Desfilam os resorts, uns a seguir aos outros. Não há praia, apenas falésia. As praias dos hotéis são plataformas construídas na rocha com espreguiçadeiras e chapéus-de-sol.

São duas horas de relaxe, sob um sol quente, a descansar o corpo dos Km de chuva. Mais uma aventura com final feliz!












Parti a pensar que a Turquia era um país complicado, estradas ao estilo de Marrocos e problemas de Médio Oriente. Coisas que lemos nos jornais. Enganei-me redondamente. Encontrei uma terra fantástica de gentes hospitaleiras, um país limpo e organizado, paisagens de sonho e culinária para gulosos. Tudo isto com um forte travo de oriente e exótico. Quero lá voltar!





Quando ir
O clima da Turquia é semelhante ao nosso. Inverno frio e verão quente. Pode-se visitar em qualquer época do ano. Apenas no inverno não se consegue andar pelas montanhas pois as estradas estão cortadas pela neve.

Estradas e gasolina
Das melhores estradas onde rolei até hoje. Largas, bom piso, devidamente sinalizadas. Todas as estradas vermelhas do mapa são vias rápidas com 2 faixas para cada lado. Até as estradas rurais fazem inveja às nossas ICs. A auto-estrada é cara. Não há portagens, tem de se comprar um cartão electrónico. Há postos de abastecimento em todo o lado. Nas vias rápidas chegam a ser de 20 em 20 km. Em todos os postos de gasolina o empregado grava o número da matrícula. Vem impressa na factura.

As únicas coisas caras na Turquia são a gasolina e as multas de trânsito. A gasolina está a cerca de 1,7€. Os limites de velocidades são iguais ao resto da Europa com a “única” diferença que há camaras de vigilância por todo o lado. As multas seguem direitinhas para casa. Todos os turcos sabem que … 121 km/h … multa!

Alimentação
Culinária turca é deliciosa. A Turquia é o país dos kebabs e donner kebabs, dos simmit (roscas de pão deliciosas) sopa de lentilha, guisados e molhos de iogurte. Condimentada e picante q.b. Os restaurantes de rua são baratos (uma refeição completa pode variar entre 3€ e 7€). Também há restaurantes mais caros, geralmente com fantásticas esplanadas, onde a variedade de entradas destrói qualquer dieta. Para os Turcos, uma refeição não é só para comer mas, principalmente, para conversar.

Alojamento
Em todas as cidades e vilas há Hotéis e “Pensions”. De vários preços. Na generalidade com preço muito razoável. Como viajei em época baixa os preços foram mais baratos. Os quartos são asseados, os colchões das camas são todos rijos. Só usam lençol de baixo e capas de édredon. Nas pensions não há duche ou banheira, o chuveiro está na parede e há um ralo no chão. Todos os alojamentos, caros ou baratos, têm chinelos de quarto selados em plástico. Há Internet wireless em todos.

Dinheiro
A Lira turca está a cerca de 0,3€ (valores de Maio 2014). Há bancos em todas as vilas e aldeias onde se pode levantar dinheiro, quer com cartão de débito quer com crédito. Nas cidades turísticas há várias casas de câmbio abertas até tarde. Pode-se pagar com cartão de crédito em quase todo o lado – bombas de gasolina, hotéis, restaurantes e até em algumas lojas. 


Nota: Este texto NÃO segue o acordo ortográfico.




Sem comentários:

Enviar um comentário

Deixe comentário