No Reino do Dragão 

Sikkim - Bhutan Tour 2013


Duas semanas a viajar pelos Himalaias. Paisagens fantásticas, templos coloridos, uma sociedade diferente. Uma viagem que não foi apenas andar de moto. Teve uma componente cultural e de aprendizagem muito forte.


Parte VI 
(fim)


QUINTA-FEIRA, DIA 28 MARÇO 2013


Esta noite tive pesadelos. Sonhei com a estrada que fizemos ontem. Estava a cair num abismo. Sonhei com as ambulâncias que vi passar durante a tarde quando atravessámos o vale. Viaturas recentes com bom aspecto. Mas foi um pesadelo. Confundia o branco do nevoeiro com o branco das ambulâncias. Quando ando nestas aventuras o meu medo real é saber que o próximo hospital está a longas horas de distância e provavelmente com poucos recursos. Por isso não arrisco a conduzir depressa. Prefiro cair devagar e ter só umas esfoladelas que cair depressa e partir algum osso. Acho que o pesadelo foi de ver as ambulâncias a passar.

Ao pequeno-almoço perguntei ao guia se sabia de algum acidente grave nas redondezas porque tínhamos passado por 3 ambulâncias. Olhou para mim e riu. Nada disso. Aqui há poucos acidentes. São técnicos de saúde que andam nas aldeias a fazer rastreios e ensinar às populações os cuidados de higiene e alimentação. As ambulâncias estão equipadas com tudo o necessário para fazer análises básicas, raios-X ou cuidados de enfermagem. No Butão, o sistema de saúde é completamente gratuito e os médicos andam mais tempo a correr o país do que ficam nos hospitais. O Governo sabe que as populações não têm o hábito de ir ao médico, por isso manda os médicos às aldeias. Se eu tivesse perguntado ontem sobre as ambulâncias se calhar tinha dormido melhor.

Hoje temos só uns 100 kms de curvas. Já digo só porque é metade do caminho de ontem. Na passagem de montanha, o Korilla Pass a 3.000 metros de altitude tiramos a primeira foto de Grupo. É engraçado, andamos juntos há quase duas semanas e no penúltimo dia é que nos juntamos para a foto. Acho que se fossemos todos Tugas já tínhamos tirado um monte de fotografias de grupo. Entre a Alemanha e Portugal são pouco mais de 2.000 kms mas a distância entre culturas é abismal.





Rolamos mais rápido. Finalmente uma estrada em condições. Linda, linda. Vamos serpenteando pela encosta, sempre a descer em cotovelos, rodeados de floresta. Por vezes a encosta de pedra inclina-se sobre a estrada. A vegetação é mais baixa, deixa espalhar o olhar pelo horizonte. Lindo, lindo, lindo.











Paramos em Trashigang para almoçar. Um restaurante que é apenas uma cozinha. Tem uma esplanada no meio da rua, protegida por um biombo feito de folhas de bambu. Lá vou almoçar apenas para não sentir fome e ter energia. Como sempre é buffet. Mas tenho uma surpresa. A comida cheira bem. É saborosa, deliciosa, sabe a temperos, um ligeiro travo de picante, coentros e gengibre. A galinha tem um molho fantástico. É a melhor massa chinesa que comi até hoje. Ganho coragem e experimento o arroz vermelho. Não é argamassa, está solto, cozido q.b., aromático. Só depois de acabar é que reparo que os alemães estão a olhar para mim e a rir. Devo ter feito um ar muito esfomeado. Já várias vezes me perguntaram porque não comia nada, só bolachas cada vez que paramos para descansar na estrada.




Estou satisfeita. Comi com gosto. E comi demais. Estou tão cheia que me deu o sono. Vou dar uma volta pela cidade para ver se acordo. Um largo e uma rua principal. Algumas lojas. Pouco turismo. Mesmo como eu gosto. Descubro uma loja com uma pequena vitrina cheia de garrafas de whisky nacional, destilado no país. É uma taberna escura, duas mesas com homens sentados a beber. Todos olham espantados. Pergunto ao dono se tem garrafas miniaturas. Em linguagem mímica aponto para uma garrafa e faço sinal de pequeno. Responde em inglês. Fixe. Compro 4 garrafitas para levar de presente. Diz-me em voz baixa e com ar cúmplice – whisky butanês é muito forte, tens de misturar com água. Explico que não é para mim, é para levar de recordação. Acena com a cabeça mas acho que não ficou convencido. Embrulha em folhas de jornal. Aqui está um presente genuíno embrulhado nas notícias do dia.

Volto ao restaurante e informo o pessoal do que encontrei. Nem 5 minutos depois estavam todos enfiados na taberna. Foi uma hora de bom negócio para a loja. Saíram todos de saco na mão. Cá fora estão muitos locais a olhar para nós. Riem-se.






Antes de partir para Ranjgung ainda tivemos tempo de visitar rapidamente o Trashigang Dzong, uma fortaleza que alberga o centro administrativo da região, o tribunal e o templo. À entrada estavam uns monges com ar simpático. Não resisti e pedi para tirar uma foto com eles. Concordaram.




Como de costume só deixam tirar fotos no pátio central. No interior é proibido. Lá ao fundo ouvem-se cânticos. Por detrás de uma porta estão os monges a estudar os escritos de Buda. Desta vez deixaram-nos espreitar dentro do templo. Jovens vestidos de vermelho, todos de igual, sentados no chão de pernas cruzadas, leem pequenos manuscritos a cantar. Uma melodia monótona, gritos comandados por um monge mais velho cuja voz sobressai da ladainha geral. São todos muito novos, uns mais distraídos olham-nos pelo canto do olho. Outros mais concentrados bamboleiam-se ao som da ladainha. À socapa tirei umas fotos e gravei um pequeno vídeo. Mas senti-me uma intrusa numa cerimónia que para eles tem um significado muito espiritual. Só que a curiosidade foi mais forte. Coisas de ocidentais.








A paisagem é fantástica. A estrada é fantástica. E o melhor de tudo é que o filho do guia que nos tem acompanhado no carro de apoio decidiu tirar umas fotos em andamento. Como eu sou a última da fila, fiquei em (quase) todas. :-)







O alojamento é uma casa de hóspedes que pertence ao Mosteiro de Ranjgung. Uma construção simples com uma decoração ainda mais simples. O quarto tem apenas duas camas e uma pequena mesa-de-cabeceira com uma vela. Nem um banco ou cadeira. Um relvado na frente da casa onde um estrado de cama serve de banco de jardim. Situada no cimo do monte, tem-se uma visão fantástica para as montanhas, o vale e o mosteiro. Um local perfeito para um fim de tarde divino.






A temperatura está morna, o vento calou-se, o pôr-do-sol tingiu as nuvens de cor-de-laranja. Descalça, sentada na relva, penso que estas duas semanas passaram demasiado rápido. Parece que foi ontem que estava contente por ainda faltarem 12 dias. A percepção do tempo é tão ilusória. As horas têm sempre 60 minutos. Quando se vive intensamente, o tempo corre vertiginosamente.

As motos estão estacionadas na relva, mesmo à frente das portas dos quartos. Andamos a tirar fotos ao pôr-do-sol. Na brincadeira sentei-me em cima de uma. Saiu isto.








Já jantámos. Um monge acedeu uma fogueira no jardim. Sentados debaixo das estrelas estamos à conversa. Noto um ambiente de nostalgia. Amanhã é o último dia de viagem. Um dos alemães abriu uma garrafa de whisky butanês o que foi motivo de brindes e conversa à volta da fogueira. A temperatura continua agradável.

Parece que as coisas boas duram pouco tempo ou que a vida é feita de pequenos momentos que nos enchem o coração. mas são apenas momentos a que damos muito valor e por vezes esquecemo-nos dos outros momentos, aqueles por que temos de passar para dar o devido valor a estes.








SEXTA-FEIRA, DIA 29 MARÇO 2013

O dia amanheceu fechado, nevoeiro e chuva. Último dia de viagem, o tempo poupou-nos durante 2 semanas. O dia da despedida é cinzento, tão cinzento como a nostalgia que já me invade o pensamento.

O percurso de hoje são cerca de 200 km para sul, em direcção à fronteira com a Índia. Debaixo de chuva miudinha e de nevoeiro intenso circulamos devagar. Já entendi porque esta estrada que não está marcada no Google Maps.

Porque não existe … está em construção...








Esta espécie de estrada é um martírio de curvas e contracurvas, cotovelos e espirais, toda em construção. Lama, pedras e areia, chuva e nevoeiro cerrado. Se isto já é complicado para mim, a chuva e o nevoeiro cerrado ainda tornam o percurso mais difícil.

Não se consegue ver a paisagem. O horizonte é uma mancha branca. A chuva e o frio embaciam a viseira. Ando com ela aberta, cara molhada. Já nem ligo aos buracos. De vez em quando temos de esperar que um buldózer abra o caminho porque a encosta desabou em cima desta espécie de estrada.

Nós e os camiões. A cada paragem entretenho-me a fotografar as pinturas e os interiores dos camiões. São autênticas obras de arte. Por fora têm pinturas coloridas e pormenores engraçados. Por dentro são forrados a latão trabalhado e tectos com apliques luminosos.









Ao longo da estrada grupos de trabalhadores constroem muros com pedras. São indianos, recrutados no Norte da Índia, num dos estados mais pobres. Ganham 180 dólares por mês e têm arroz e DAL gratuitos. Para eles é um excelente emprego. Há mulheres e homens que trabalham lado a lado. Famílias de trabalhadores que acampam à beira das obras. E crianças a brincar nos acampamentos. O guia diz que todos querem vir para cá trabalhar pois a alternativa é … a fome e a miséria.

Sinto-me privilegiada por ter acesso ao conforto e ter oportunidade de ver outros mundos. Mas também sinto uma revolta interior porque nem todos podem aceder ao mesmo conforto, porque um país rico em recursos tem tanta gente com fome, porque os homens querem dominar outros homens e os meios para o fazerem são desprezíveis – anda tudo à volta da riqueza, da religião, da sede de poder.
















Da parte da tarde em direcção às planícies, quanto mais descemos a montanha, melhor o tempo. O nevoeiro denso ficou lá em cima, a chuva largou-nos. Vamos contornando a montanha, lentamente, a descer. Até a estrada melhorou, já de alcatrão, estreita, mal cabem dois camiões. As curvas são apertadas. Mais um camião virado.






Parámos para descansar numa curva de estrada junto a um pequeno templo Hindu. Um velhote pequenino e magro guarda o templo. Aproxima-se de nós, faz-nos uma marca na testa, entre as sobrancelhas, com uma pasta vermelha, um sinal de bênção ou boas vindas. Depois dá-nos água e um grão de açúcar. Na tradição hindu, a marca no meio dos olhos simboliza o terceiro olho ou o olho da sabedoria.

O altar tem um prato para donativos. Entre todos, enchemos o prato de notas. Não disse uma palavra. Cruzou os braços no peito, esboçou um sorriso e caíram-lhe lágrimas. Este velhote vive aqui. Vive para tocar o sino cada vez que passa uma viatura e abençoar os viajantes. É feliz na sua missão. Não conhece outra vida. Vive num universo diferente do nosso. Pés na terra mas tão longe daqui.






A rolar com calma, perto do destino final, finalmente consegui fazer uma coisa que me andava a fascinar desde que entrámos no Butão. Fotografar cada aviso de segurança na estrada. Com a diplomacia e educação que os caracteriza, a sinalização de perigo contém uma mensagem subtil e divertida que me arrancou sorrisos nos últimos 5 dias.
















Já perto de Samdrup Jongkhar na planície, o ar é abafado, a paisagem subtropical. A influência indiana é fortíssima. As estradas e ruas continuam limpas mas sente-se um cheiro a caos. As casas são descaracterizadas, desapareceram as janelas em madeira e as pinturas coloridas. O hotel é no 2º piso de um edifício. Para subir temos de atravessar um centro comercial movimentado. Não há Internet. Depois de jantar trocamos endereços de e-mail e bebemos mais uma garrafa de whisky.

Acabou a aventura.
Ou quase …

Não resisti a fotografar a mesa de jantar. Os individuais são pequenos quadrados de material de alcatifa, orgulhosamente dispostos em cima de uma velha toalha aos quadrados. Um mimo.








SÁBADO, DIA 30 MARÇO 2013


De manhã cedo há agitação frente ao Hotel … para nos verem a carregar as malas nos 2 jipes que nos vão levar ao aeroporto. São os malucos dos turistas que andaram a correr o país de moto. Apontam para mim e conversam. Sinto-me quase uma extraterrestre. O motorista do jipe trata-me por “madame”.




Daqui até à fronteira com a Índia são meia dúzia de km numa estrada fortemente patrulhada pelo exército. Paramos no meio do nada, duas casas, uma tenda que vende chá e bolachas e um regimento do exército que ladeia a estrada. O condutor do jipe desapareceu pelo meio das árvores. Foi chamar o oficial da fronteira que vive numa casa lá atrás. Não é por ser madrugada é mesmo que a fronteira só abre se se chamar o oficial.

A fronteira é uma pequena casa, tem uma secretária e um velho sofá. O oficial abre com toda a cerimónia, fazemos fila à porta. Uma hora para por um carimbo de reentrada na Índia a 10 pessoas. Tem um livro de registos onde escreve pausadamente com letra floreada os nomes e data de saída.

Demorou 15 minutos a folhear o meu passaporte à procura do visto de saída do Butão. Olhava para mim com ar desconfiado. O meu instinto fez-me agarrar o passaporte e indicar o canto da folha onde estamparam um pequeno carimbo redondo. Com ar humilde fiz-lhe uma vénia com a cabeça e pedi desculpa. Olhou-me de alto a baixo, carimbou o passaporte e mandou seguir. Nestas coisas de fronteiras estou-me nas tintas para se são arrogantes, altivos ou se me discriminam por ser mulher. O objectivo é passar sem problemas. Tenho um avião para apanhar e 180 km de estrada na Índia num dos estados mais caóticos de trânsito. Os alemães tiveram direito a salamaleques e conversa de circunstância. Tenho a certeza que um dia vou ser olhada e respeitada como um ser humano em todo o planeta. Basta esperar com paciência. O mundo está a mudar.








Quatro horas. Quatro! Para fazer uns míseros 180 km desde a fronteira até ao aeroporto de Guwahati numa velocidade alucinante por entre camiões e vacas. A estrada atravessa um sem número de povoações, um trânsito infernal de peões, bicicletas, rickshaws, motoretas, vacas e carros. A esta hora da manhã há centenas de pais que levam os filhos à escola, pendurados nas bicicletas, rickshaws e motoretas com atrelados gradeados cheios de crianças fardadas e sorridentes, carroças com produtos para vender no mercado. Uma azáfama que dura a manhã toda e entope as estradas.














Uma estrada igual a tantas outras por onde passamos de moto neste país. Mas só agora, dentro do jipe e no lugar do passageiro é que consigo perceber a dimensão desta confusão. A conduzir a concentração está virada para a sobrevivência imediata, para os potenciais perigos na nossa trajectória. Não se consegue ter uma visão global deste caos. Ainda bem, costuma-se dizer que o que não se sabe não incomoda.


Finalmente chegados a salvo ao aeroporto. Acho que tremi mais para chegar aqui do que nas estradas de terra e buracos que fizemos. O motorista esgueirava-se por entre os carros e os peões, fazia tangentes milimétricas às bicicletas, andava a maior parte do tempo em contramão, só via frentes de carros em direcção a nós que desapareciam de repente quando o motorista regressava à sua mão. Parecia uma gigantesca pista de carrinhos de choque. No meio de guinadas e buzinadelas, agarrada ao cinto de segurança, a minha cabeça rodava ao mesmo tempo que o Buda giratório que estava colado no tablier do jipe. Um frenesim.

Acabaram as férias, acabou a aventura. Esta pequena viagem teve um gosto especial. Não foi apenas andar de moto pelos Himalaias, foi mais que isso. Foi uma experiência cultural graças ao nosso guia, o Tenzin, que com muita paciência e sabedoria respondia às centenas de perguntas.

Também foi interessante rolar com 9 desconhecidos alemães que nunca me pareceram desconhecidos. Não foi necessário grandes apresentações sobre nós, a paixão comum das duas rodas afasta qualquer distância entre pessoas. Foi como se estivesse a viajar com os meus irmãos mais velhos.

FIM


Nota: Escrito ao abrigo do (Des)acordo ortográfico!

2 comentários:

  1. Já tinha saudades!

    Adorei a foto de grupo! é um prazer ver o meu país tão bem representado, e ainda por cima, pela unica senhora ;-)

    ResponderEliminar
  2. Também eu cheguei ao fim desta excelente crónica e que maravilha foi ler os teus relatos que me dão um aperto no coração de tanta inveja saudável, pois sou um apaixonado pelo Oriente, suas gentes e costumes.
    Obrigada Paula por mais uma crónica e viagem memorável.

    ResponderEliminar

Deixe comentário