No Reino do Dragão 


Sikkim - Bhutan Tour 2013


Duas semanas a viajar pelos Himalaias. Paisagens fantásticas, templos coloridos, uma sociedade diferente. Uma viagem que não foi apenas andar de moto. Teve uma componente cultural e de aprendizagem muito forte.


Parte V 
(há mais para ler)


SEGUNDA-FEIRA, DIA 25 MARÇO 2013


Mais um despertar de madrugada. A vista do hotel é mais uma vez fabulosa. Montanhas e florestas cobertas por nevoeiro. Pedaços de nuvens estão presos nas árvores. Ando a tirar umas fotos do hotel porque ontem chegámos já não havia muita luz. Nem me apercebi da vista fantástica sobre a fortaleza de Trongsa.




Às 9h da manhã já estamos à porta da torre de vigia da fortaleza de Trongsa. Está transformada em museu onde estão guardadas muitas das relíquias da religião budista butanesa. Não se pode fotografar no interior (como em todos os mosteiros) e os guardas obrigam a deixar todos os pertences à entrada. Até revistam os bolsos. A torre tem 3 pisos e está cheia de estátuas, manuscritos e uma cópia da coroa dos antigos governadores da região que tem uma cabeça de corvo. Foi daqui que apareceu a actual monarquia do Butão, que é descendente do governador desta parte central do país.

Do último andar tem-se uma vista fantástica. A torre e a fortaleza estão construídas numa encosta que domina a junção de quatro vales. É ponto de passagem obrigatória para quem se desloca entre o Este e o Oeste. Uma localização estratégica para quem quer dominar as rotas de comércio.






Apenas é permitido visitar o pátio interior da fortaleza – Trongsa Dzong. Entramos por uma pequena ponte de madeira, subimos a estrada de acesso e uma porta estreita leva-nos por um corredor cheio de pinturas de Buda ao pátio interior. Não me canso de ver esta arquitectura cuidada, os pormenores do trabalho em madeira, as pinturas de cores fortes.










O destino de hoje é o vale de Bumthang que está a 2.600 metros de altitude. Eu que nasci e sempre vivi numa cidade ao nível do mar acho engraçado eles chamarem vale a um planalto tão alto. Mais uma situação que prova que tudo é relativo, condicionado pela vivência das pessoas.

Para lá chegar temos de atravessar mais uma passagem de montanha, o Yutong-la pass, a 3.400 metros de altitude. Andamos cada vez mais alto. Cada vez mais frio. Mas o frio daqui é mais fácil de suportar. Não sentimos a humidade do ar porque é seco. Tenho uma t-shirt de algodão vestida por debaixo do casaco e é suficiente. O casaco é quentinho. Outro marco assinala a passagem e mais outra selva de bandeirolas, estas já um pouco estragadas do vento que sopra forte. Não ficamos parados por muito tempo.







Tenho reparado que em muitos locais há uma enorme quantidade de pequenas formas pontiagudas, algumas coloridas outras brancas. O guia explica que são feitas de terra, moldadas em formas. Têm dois propósitos: ou são apenas para trazer boa sorte e longa vida a quem as faz e neste caso são purificadas pelos monges numa cerimónia especial e depois são colocadas em lugares “limpos” ou então … são as cinzas dos falecidos que depois de cremados as famílias misturam com terra e fazem estas pequenas formas para que o falecido tenha uma “boa reencarnação”.

Não sei o que me faz mais confusão – se a superstição de que moldar um montículo de terra vai trazer uma vida mais longa se o facto de haver cinzas de corpos humanos espalhadas por todos os lados. Não consigo acreditar em nada disto. Por todo o mundo, a religião mistura-se com as antigas crenças pagãs. Através dos séculos os homens tiveram necessidade de acreditar em qualquer coisa, seja lá o que for. Até coisas sem sentido. Talvez o mundo mude quando começarmos a acreditar em nós próprios e que uma longa vida se constrói dia-a-dia.




Estamos mesmo no centro do país, no meio da floresta negra, num vale que é considerado o centro cultural e espiritual do Butão. Rolamos por entre aldeias e quintas, campos cultivados, animais e casas rurais que mais parecem pequenos templos.

Numa das aldeias há uma loja de artesanato que vende produtos de tecelagem. Cá fora está um tear manual. Tapetes, mantas ou faixas de cores garridas, umas em lã, outras em fio de seda. Todas incríveis, com motivos espirituais, parecidos com os padrões que vi nos mosteiros. Feitas à mão por artesãos. Caras, caríssimas. A loja até tem um terminal de pagamento automático. Enquanto os alemães fazem compras entretenho-me a fotografar o interior da loja. Para além dos tecidos, há máscaras espectaculares.












Muitas crianças correm para nos ver. Curiosas, riem-se para nós. Reparei no caminho muitos grupos de crianças, com lancheiras, a caminhar à beira da estrada, saídas da escola de certeza. O Tenzin diz que esta região do país tem uma taxa de nascimento muito elevada. Até há poucos anos os jovens casavam muito cedo. As raparigas aos 12 anos e os rapazes aos 14 anos. Por tradição os casamentos são combinados pelos pais que escolhem famílias do mesmo estatuto social ou melhor. Agora é proibido. Só podem casar a partir dos 18 anos. E se dois jovens se quiserem casar podem pedir autorização ao tribunal. Mas é raro acontecer porque os filhos respeitam muito a opinião dos pais. O divórcio é permitido e a taxa de divórcios é muito alta. Ele próprio já vai no segundo divórcio. Casamentos arranjados pelos pais. Depois da explicação remata com uma frase que me arrepiou – Sabes, o conceito de amor e estar apaixonado é muito recente no Butão. Fiquei sem palavras. Acho que vou demorar a mastigar isto.




Mais um hotel encavalitado na encosta com uma vista soberba sobre o rio e o vale. Só nas cidades os hotéis são em edifícios. Pelo interior usam os bungalows. Fixe. Os quartos são grandes, as camas duras, pouca mobília. A noite é gelada. Este tem um pequeno forno em metal que aquece o quarto rapidamente. Mas usam madeira de pinho que arde num instante. Enquanto fui jantar apagou o lume. Imaginei-me a acordar de noite, de hora a hora, para meter lenha no forno. Acabei por pedir um aquecedor eléctrico. Cara de espanto do dono. Explico que venho de um país tropical, em que a temperatura no inverno é mais quente que agora aqui. E eles consideram esta temperatura como uma boa primavera.

O alemães ainda estão na sala de jantar à volta das cervejas. Enquanto espero que vão por o aquecedor no quarto começamos a falar do frio. Um deles pergunta-me qual a melhor época para andar de moto em Portugal. Respondo com um ar muito sério e distraído – de Janeiro a Dezembro.

De repente param de conversar e olham todos para mim de olhos muito abertos. Faço-me de desentendida. Voltam a perguntar de novo. Repito que se pode andar de moto durante todo o ano. Apenas em Fevereiro e Março chove um bocado mas anda-se bem. E não há neve? Sim, temos uma montanha com neve no Inverno mas mesmo assim ainda conseguimos subir lá acima.

Estou a fazer um esforço enorme para não me rir da cara de espanto deles. Quase sou obrigada a explicar que temos um clima bastante ameno e que costumamos andar de moto todo o ano sem problema. Com um ar de desalento um deles explica que neste momento há metros de neve na Alemanha e que apenas podem rolar 8 meses por ano. Faço um ar admirado como se aquilo fosse algo de muito estranho. Respondo com um sorriso que têm de ir viver para Portugal.

Saio da sala de jantar ainda com o meu ar composto mas por dentro estou esfusiante. Chego ao quarto a rir-me sozinha. Satisfeita. Eles podem ter mais dinheiro ou melhores motos. Mas eu vivo num paraíso.







TERÇA-FEIRA, DIA 26 MARÇO 2013


Hoje deixaram-nos dormir até às 9h da manhã. Youpieee. Vamos ficar neste hotel duas noites. O dia vai ser passado a visitar o vale. Sem pressas. O pequeno-almoço é demorado. Estamos na conversa à espera que o mecânico acabe de arranjar uma das motos. Abriu o motor e desmanchou-o todo. No meio do estacionamento. Está a limpar engrenagens. Depois de fechar o motor mete óleo com um bocado de plástico cortado de um garrafão de água. É um trabalho admirável. Mesmo sem perceber alemão adivinho os comentários dos companheiros de estrada. Pelos risos e caras de admiração.







O primeiro mosteiro chama-se Jambey Monastry. Foi dos primeiros a ser construído no Butão. Pertence aos 108 mosteiros que um remoto Rei do Tibete mandou construir por toda a região dos Himalaias para difundir o budismo. Já percebi o porquê do número 108 – os chortens que construíram no Dochula Pass onde passamos há 2 dias. Nota-se bem que o mosteiro é antigo. Está um pouco degradado e anda em trabalhos de restauro.

À entrada há 4 rodas de oração enormes, duas de cada lado. Cada vez que giram fazem tocar uma campainha. Andam muitos velhotes por aqui, a dar voltas ao mosteiro, com rodas de oração na mão. Uma velhota está de joelhos, inclina o corpo até ao chão e endireita-se, canta umas rezas. O guia diz que são habitantes da aldeia próxima. Vêm para aqui porque não têm mais nada para fazer. Fez-me lembrar das beatas que passam a vida enfiadas nas igrejas.




Cá fora, na entrada estão mulheres a vender artesanato, made in China. Já começo a reconhecer os artigos. São todos iguais em todo o lado. Colares de grandes pedras que todos dizem serem semipreciosas, pulseiras de osso de YAK em plástico, vasos em metal que quando se tocam fazem o barulho dos gongos dos mosteiros. O costume.

O turismo entrou no Butão há pouco tempo mas as pessoas aprenderam depressa. Até estou contente de não ter ido na conversa dos vendedores das lojas em PARO. Poupei umas massas em não comprar “artigos raros”. Um dos alemães pergunta-me como é que sendo mulher resisti às compras. Respondo-lhe que tirei o diploma de negociação com os marroquinos e a pós-graduação na Índia. Logo à noite explico melhor.




Uns poucos km mais à frente e estamos no Kurje Lhakhang, um conjunto de 3 mosteiros. O muro que rodeia o complexo tem 108 pequenos chortens (de novo o número 108). Entra-se por um arco em madeira para um enorme pátio. Só um se pode visitar um dos mosteiros mas é o mais sagrado. Foi construído na entrada de uma gruta onde Padsambhava - o Guru Rimpoche, meditou. Tal era o seu poder que deixou gravado na rocha a marca do seu corpo enquanto meditava. É considerado um local santo. Não deixam tirar fotos no interior.




Mais uma estrada que não existe, um caminho de terra e poças de água para chegar a outro mosteiro - Tamshing Lhakhang. Este também é muito antigo e foi construído por um monge que se dizia ser a reencarnação do Guru. Tem umas pinturas espantosas mas em muito mau estado. No corredor interior estão pintados mil Budas. O templo está quase em ruínas e é mantido pelos aldeões.

No pátio há uma banca de venda de artigos feitos pelos monges e uma caixa para donativos. Como o mosteiro não é apoiado pelo Governo, precisam de recolher dinheiro para recuperar o mosteiro. O engraçado é que está à venda uma tapeçaria em fio de seda por 150 euros igualzinha a uma que vimos ontem na loja de artesanato e que custava 800 euros. Um dos alemães ficou todo contente e comprou.




Vêem-se corvos às centenas. Enormes, pretos, em bandos ou em pares, estão em todo o lado. Voam em bandos até tapar o céu. Poisam perto de nós, quase a desafiar-nos. As pessoas coabitam calmamente com eles. Já dei por mim a baixar a cabeça com medo das razias que nos fazem ao poisar. Não deve ser por acaso que o corvo é um dos símbolos nacionais e que a coroa de Rei tem um corvo no topo.


Acabámos de almoçar e temos a tarde livre. Acho que vou dormir uma sesta. Depois volto para o restaurante e aproveito que aqui há Internet. Vou falar com a família e espreitar as novidades de casa. Não me apetece fazer mais visitas hoje.

Desde que entrei no Butão que reparo em algumas mulheres com os lábios pintados de vermelho vivo e até alguns homens com os cantos da boca vermelhos. Não percebia porquê, até cheguei a pensar que seria um hábito de maquilhagem local. A deambular dentro da fortaleza e a fotografar as pessoas apercebi-me que quase todos andam a mastigar qualquer coisa, todos com lábios vermelhos.  Pergunto ao guia o que significa aquilo. Parece que nesta zona da Ásia, há uma tradição ancestral de mascar Betel Nut, uma semente conhecida por noz de Betel, uma espécie de palmeira encontrada nesta região. A noz é enrolada numa folha fresca da palmeira e pincelada com cal. Este preparado é mastigado por várias horas e muito popular quer em mulheres quer em homens. Contém substâncias químicas semelhantes à nicotina, o que significa que tem um efeito narcótico e viciante no consumidor. A mastigação mistura os ingredientes e transforma-se numa massa vermelha que pinta os dentes e estimula a salivação. Também fiquei a perceber porque tenho visto tanta gente a cuspir para o chão.






QUARTA-FEIRA, DIA 27 MARÇO 2013 


Hoje vamos ter uma odisseia pela frente. 210 km de montanha bem alta. Vamos atravessar duas passagens de montanha, uma delas a quase 4.000 metros de altitude. Vesti o polar e cozi os forros todos do casaco. Está muito frio. O resto do pessoal anda todo contente. Eu confesso que estou apreensiva. A única coisa que não esperava nesta viagem foi o estado das estradas. Um paraíso para quem gosta de andar por maus caminhos. Péssimo para mim. Vamos embora. Hei-de conseguir. 

Vamos subindo (ainda mais) por entre curvas de céu limpo e horizonte sem fim. Lá ao fundo os picos de neve vão espreitando por entre as nuvens. Atravessamos Ura La Pass, mais uma passagem de montanha para o outro lado. Descemos de novo ao vale. Isto parece um carrossel, sobe e desce. Em cada subida a paisagem é mais espectacular que a anterior, cada vale é mais escondido e mais bonito. Neste as casas estão todas viradas para o mesmo lado. Para o sol. Visto cá de cima parece uma montagem de Legos, casinhas todas iguais, arrumadinhas, coloridas. 








Isto de viajar com companhia é quase um luxo. Nunca tive tantas fotos minhas nos sítios por onde andamos. Como na maior parte das vezes ando por esse mundo fora sozinha, acabo por não ter fotos minhas. Uma vez perguntaram-me porque tirava tantas fotos da minha moto. Acho que é para um dia mais tarde eu saber que lá estive. Um bocado hilariante mas verdade. A moto é a minha companheira de viagem. Se ela soubesse tirar fotos eu também aparecia nelas. Também já podia ter começado a usar a função de retardador da máquina. Mas nunca me lembro disso. Fico sempre tão feliz por estar num local e por ver coisas diferentes que nem me lembro de (me) tirar fotos.

Ainda estamos na região conhecida por Black Mountains, as montanhas negras. As árvores são escuras, altas e agrestes. A floresta é densa. O nevoeiro não larga as copas das árvores. Desce até à estrada, não se vê quase nada. Há neve nas encostas, nas curvas da estrada, blocos brancos que se confundem no nevoeiro. Não percebo onde estou, a paisagem desapareceu. É tudo branco à minha volta. 

A estrada é terra e lama. Vamos devagar. Conduzo um bocado em automático. Tenho tanto medo que nem sinto nada. Acho que os outros também estão um bocado impressionados. Nem me ultrapassam. Vamos todos em fila, com cuidado, encostados à parede da montanha. Meio metro ao lado deve haver uma ravina medonha. 







Atingimos a passagem mais alta. Estamos a cerca de 3.900 metros de altitude. Assinalado com um marco de estrada que nos diz onde estamos. Paramos para as fotos da praxe. Tiro o capacete só para a foto e tenho de fazer esforço para não se notar que estou a tremer de frio. Afasto-me um pouco dos outros. Vejo-os esbatidos através do nevoeiro. O silêncio é impressionante. Parece que nos esmaga. 








O guia está mais que habituado à altitude e ao frio. Estamos todos a tiritar e ele está pausadamente a explicar coisas. Nesta região há bastantes mosteiros escondidos na floresta. Não se podem visitar, só entram monges. Fazem uma vida de privação, comem apenas o que cultivam, não têm aquecimento, não há TV ou Internet nem sequer telefone. Vivem completamente afastados do mundo, em retiro, em meditação. Diz-se que para conseguir atingir um grau de iluminação superior têm de meditar profundamente durante cerca de três anos. Para limpar todos os pensamentos impuros, as tentações. 

Fiquei a pensar que tentações eles têm de limpar. Num país onde tudo está num estado quase puro, onde não existem as tentações da civilização a que assistimos todos os dias, ainda assim eles pensam que precisam de se purificar. Quando se viaja e se conhecem outros mundos, outras formas de viver, fica-se com a certeza que nada está certo e nada está errado. As nossas certezas são tão incertas.

Seguimos pela montanha adentro, o nevoeiro acompanha-nos. Depois de estarmos parados lá em cima fiquei mais calma. Se cheguei até aqui também posso continuar. Estou tão satisfeita comigo própria que me dá vontade de rir. Ando numa moto com pneus de estrada, fininhos e quase carecas a fazer todo-o-terreno. Cada vez que penso que a malta vai fazer terra com motos potentes, preparadas com pneus de tacos e artilhados com protecções para tudo, lembro-me como tudo na vida é relativo e sem importância. Aqui estou eu, no topo do mundo, a ultrapassar obstáculos que em casa seriam uma catástrofe. Estou apavorada com a estrada mas vou continuando. Não vale a pena bloquear. O caminho é para a frente. Vai melhorar de certeza.

Os meus ouvidos apitam e estalam a avisar que estamos a descer. Este é o país das curvas. Faz as delícias de quem gosta de conduzir no limite do pneu. Faz as delícias de quem gosta de maus caminhos. Na minha mente passam imagens dos meus amigos do Trail, enlameados, cansados, olhos brilhantes de satisfação e a pular de contentes por andar aqui. Imagino-os a dizerem-me que sou uma medrosa e que é tudo psicológico. Pois deve ser. Cada um com os seus medos. Mas uma coisa é certa, há lugares que são difíceis para se chegar. Mas valem a pena. Valem todo o esforço. E ajudam a ultrapassar os medos.

O nevoeiro ficou lá em cima, a estrada de terra também. Rolamos montanha abaixo, embalados pelas curvas que contornam a encosta. Numa paragem para descansar há um pequeno café pendurado na encosta. Tem um nome interessante. Lá dentro estão 4 monges a comer. Também devem andar em viagem para um qualquer mosteiro. Olham-nos com curiosidade.









Por aqui não existe o conceito de casa de banho. As populações utilizam o campo. Cada vez que preciso tenho de ir atrás de um arbusto. Hilariante. Também é raro haver um local com uma mera latrina. Aqui há. Mas foi uma experiência assustadora. Um cubículo em madeira pendurado no abismo. No chão há espaços entre as madeiras a olhar para o vazio lá em baixo. Foi preciso um auto controlo muito forte para conseguir fazer as necessidades. Não vai ser difícil contar piadas sobre esta odisseia.






Finalmente chegamos a Mongar, numa altitude mais razoável. Só da altura da nossa serra da Estrela. A temperatura é mais agradável. O quarto do hotel é …. celestial. Paredes azuis, colcha azul, cortinas azuis. O chuveiro é no tecto. A água cai no meio da casa de banho e escorre para um ralo no canto. Depois do duche o chão está todo alagado, pinga para dentro do quarto. A TV deve ter uns 30 anos, está encalhada no canal nacional do Butão a passar uma novela dramática. O som é altíssimo e não baixa. O comando não funciona e a TV tem buracos nos sítios dos botões.

O que salva tudo é a simpatia das funcionárias. Ao jantar, a mais velha ensina a servir à mesa. Ficam com cara de felicidade depois de conseguirem por os pratos na mesa, um por um. Uma missão que lhe arranca sorrisos de contentamento. Saltitam à volta da mesa, coram quando lhes falamos, respondem num mau inglês. Estamos todos com um ar divertido, dispostos a perdoar a péssima comida e as casas de banho inundadas.


Nota: Escrito ao abrigo do (Des)acordo ortográfico!
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1 comentário:

  1. A cada linha vai crescendo a minha admiração por esta grande Kota!

    Ass: a cusca ;-)

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